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Lola Huete Machado

As longas guerras do Sahel

Por: | 15 de diciembre de 2012

Autor invitado: Jonuel Gonçalves (*)

Vamos considerar o Sahel na sua versão geografica mais longa, ou seja, toda a faixa sul, contigua aos desertos norte-africanos do Atlântico ao Índico. Dois pontos aparecem como históricamente importantes  desde o início da penetração islâmica: Tombuctu no atual Mali e Mogadiscio na atual Somália, ambos de grande relevo histórico-comercial. Tombuctu  nas comunicações transaarianas e Mogadiscio nas comunicações do Índico com o Mar Vermelho.

A inicial  expansão islamica nesta longa faixa não decorreu de operações militares, como no Egito ou no Magreb. Comerciantes àrabes foram o elemento principal no processo, ajudados em seguida por alguns pregadores, embora no caso oeste africano a revolução Almoravida tenha tido influência. Neste lado do Sahel, o começo da presença muçulamana teve lugar no século XI, com características de religião das  camadas  dirigentes (ou religião da Corte). Só mais tarde evoluiu para religião popular, no termo de um longo percurso que, em certas àreas da sub-região, durou até ao século XVI.

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A entrada islamica na costa oriental africana é anterior, havendo indicações de sua presença nos atuais Quênia e Tanzânia desde o século VIII.

No século XV, Tombuctu fazia parte do imaginario arabe e europeu, em virtude de historias dos viajantes árabes sobre o impacto do comércio de ouro. Mesmo estas  histórias tendo sido bastante atenuadas em seguida, manteve-se o lado simbólico da cidade. Na mesma época, Mogadiscio foi celebrada como grande centro urbano e comercial em cronicas portuguesas, sobretudo do historiador João de Barros.

Desde finais do século XX, as duas cidades  - e seus respectivos países - voltaram aos grandes noticiários em virtude da implantação de importantes redes ligadas à Al Qaida. No caso maliano, tratou-se de mais uma influência procedente da vizinha Argélia, com a mudança de nome pelo Grupo Salafista pela Oração e o Combate  transformado em Al Qaida do Magreb Islâmico (Aqmi)  hoje mais ativa no Sahel ocidental (Mauritania, Mali, Niger) que na Argélia onde foi fundada.

 
Os montes Tiberine na fronteira entre os dois países tornou-se um verdadeiro quartel-general do movimento e, quando  militantes Tuaregues fundaram o Movimento Nacional de Libertação de Azawad (MNLA) e lançaram um movimento armado pela independencia do norte do Mali, em janeiro deste ano, a Aqmi dispunha de dispositivos e  contactos locais, capazes de ocupar o terreno, inclusive contra o próprio MNLA.

Uma  aliança de facto foi criada entre Aqmi, o Movmento pela Unicidade  e Jihad na Àfrica do Oeste (MUJOA) e o movimento Ansar Edinne, dirigido por um influente lider Tuaregue, contrario á independencia regional e favoravel à aplicação da sharia (lei coranica) em todo o Mali. O MNLA que tinha conquistado as cidades de Kidal, Gao e Tombuctu, foi desalojado militarmente por estes movimentos, enquanto o exército maliano, com poucos efetivos e material reduzido, retirou. O Mali fiocu dividido.

Humilhados pela derrota e culpando os políticos de Bamako, capital maliana, oficiais malianos executaram um golpe militar que pôs fim ao regime democratico existente no país e  até então considerado dos mais consolidados em todo oeste africano. A Comunidade Economica dos Estados da Àfrica do Oeste (CEDEAO) promoveu um acordo de regresso a governo civil; na pratica os militares golpistas permanecem muito influentes. Ao mesmo tempo, a CEDEAO propôs-se  enviar uma força armada de Estados membros para refazer a unidade do país. Tambem lançou uma iniciativa de mediação, conduzida pelo Presidente do Burkina Faso, na qual um dos objetivos pirncipais é afastar o Ansar Edinne da aliança com os jihadistas.

Esta semana, o Ansar Edinne, o MNLA e  uma delegação do governo  do Mali encontraram-se na capital burkinabense, Uagadugu, em negociações preparatórias para uma solução política. Isto não impede o prosseguimento dos preparativos militares e algumas divergencias sobre  eles. Um documento do secretario-geral da ONU  insiste mais em negociações políticas e seu enviado especial - o italiano Romano Prodi - afirmou que uma operação militar não será  viável antes de setembro 2013; os Estados Unidos, pela voz do seu comandante militar para Àfrica, general Carter Ham, constata que a maior parte do efetivo oeste africano previsto para intervir no Mali, é composto por soldados treinados para manutenção de paz e não para ações  ofensivas.

A França, a CEDEAO e o Presidente em exercício da União Africana, ao contrário, insistem na urgencia da  ação  militar.

Do outro lado do continente, prossegue a guerra somali, iniciada na década de 1980 com  a  queda da ditadura de Siad Barre após um conflito de configurações classicas com a Etiopia, então apoiada pela ex URSS e Cuba. Uma grande analogia de base se estabeleceu  relativamente ao Afeganistão. Tal como neste país, os clans  - grupos de familias que acreditam terem antepassados comuns - somalis ganharam dimensão de partidos políticos armados, chefiados por senhores da guerra. O caos e  a violência instaurados, abriram espaço para a criação de formações políticas islamistas favoraveis ao jihadismo. Inicialmente, adotaram posturas de agrupamentos humanitarios e aplicadores da lei coranica. Taliban no Afeganistão, União dos Tribunais Islamicos (UTI) na Somália.

A UTI dividiu-se, tendo um largo setor aderido ao Governo Federal de Transição, apoiado pela União Africana e sua respectiva  força militar, com um efetivo de cerca 17 mil homens. Alem disso, permanecem tropas etiopes em área importantes como Baidoa (perto de Mogadiscio) e tropas quenianas, no extremo sul, com relevo para o porto de Kismayo.

Untitled1 No extremo norte, a parte da Somalia colonizada pelo Reino Unido, separou-se do resto (ex colonia italiana) proclamando a Republica do Somaliland (não reconhecido internacionalmente) e a região do Puntland declarou autonomia, sem se separar. Esta região tornou-se notada, como base dos piratas que atacam a  navegação e obtêm  elevados montantes em resgastes, parte dos quais dão lugar a investimentos nos pequens portos pesqueiros da àrea. A adminstração local não tem meios para impedir tais atividades.

Da ala  contraria ao Governo Federal de Transição na antiga UTI saiu  o movimento Al Shebab, declaradamente integrado na constelação Al Qaida e que controla  grande parte do país. Durante algum tempo ocupou mesmo Mogadiscio, de onde foi expulso pelas tropas etiopes. O importante porto de Kismayo só lhe foi reconquistado há poucas semanas, graças a  uma operação anfibia, com presença destacada de unidades quenianas. Com alguma regularidade, as posições do Al Shebab são bombardeadas pela aviação norte-americana, com bases na vizinha Republica de Djibuti e na ilha de Diego Garcia. Os jihadistas somalis  são suspeitos de terem papel de relevo nos atentados contra as embaixadas USA em Nairobi e Dar Es Salam, na década de 1990 e, mais recentemente, executaram um mortifero atentado na capital ugandesa, Kampala, alem de raptos  no Norte do Quênia.

Esta semana, um grupo bem armado do Al Shebab atacou em pleno Puntland uma coluna de soldados locais, causando no mínimo dez mortos e varios feridos. Poucos dias antes, o novo Primeiro Ministro da Etiopia, em presença do recem eleito (em assembleia de chefes tradicionais ) Presidente do Governo Federal de Transição somali, Hassan Cheick Mahmoud, declarou que as  tropas de seu país só retirarão da Somalia quando forem substuitídas  por tropas da União Africana.

Dois dois lados do grande Sahel, a intervenção de forças sub-regionais aparece assim como a tendência  dominante contra o jihadismo.

(*) Jonuel Gonçalves. Investigador en el Instituto de Estudios Estratégicos de la UFF (Río de Janeiro) y en el Centro de Estudios de la Educación y Desarrollo (Ondjiva, Angola). Sus libros más recientes son: A economia ao longo da Historia de Angola y Relato de guerra extrema. Desde Brasil escribe El blog de Jonuel. Publicaremos a partir de hoy algunas entradas simultaneamente (siempre que se pueda).

(**) Mapas de Mali (Min. Aff. Étrangéres, París) y Somalia (BBC).

(***) En los días en que se escribió este post el primer ministro de Mali dimitió tras ser detenido por militares que participaron en el golpe de Estado. Y la Casa Blanca buscaba poderes para la lucha antiterrorista en el Norte de Mali.


Hay 3 Comentarios

gostei de ler um texto em português além dos textos em espanhol e inglês. Muito legal seu blogue!

¿Querem que traduza ao espanhol? Faría com muito prazer pois adoro o seu blogue e sou fiel seguidoura....

Interesantíssimo artigo!

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Sobre los autores

Lola Huete Machado. Redactora de El País y El País Semanal desde 1993, ha publicado reportajes sobre los cinco continentes. Psicóloga y viajera empedernida, aterrizó en Alemania al caer el muro de Berlín y aún así, fue capaz de regresar a España y contarlo. Compartiendo aquello se hizo periodista. Veinte años lleva. Un buen día miró hacia África, y descubrió que lo ignoraba todo. Por la necesidad de saber fundó este blog. Ahora coordina la sección Planeta Futuro.

Chema Caballero Chema Caballero. Llegó a África en 1992 y desde entonces su vida giró en torno a sus gentes, su color y olor, sus alegrías y angustias, sus esperanzas y ganas de vivir. Fue misionero javeriano y llevó a cabo programas de educación y recuperación de niñ@s soldado en Sierra Leona durante dos décadas, que fueron modelo.

José NaranjoJosé Naranjo. Freelance residente en Dakar desde 2011. Viajó al continente para profundizar en el fenómeno de las migraciones, del que ha escrito dos libros, 'Cayucos' (2006) y 'Los Invisibles de Kolda' (2009), que le llevaron a Marruecos, Malí, Mauritania, Argelia, Gambia, Cabo Verde y Senegal, donde aterrizó finalmente. Le apasiona la energía que desprende África.

Ángeles JuradoÁngeles Jurado. Periodista y escritora. Trabaja en el equipo de comunicación de Casa África desde 2007. Le interesa la cultura, la cooperación, la geopolítica o la mirada femenina del mundo. De África prefiere su literatura, los medios, Internet y los movimientos sociales, pero ante todo ama a Ben Okri, Véronique Tadjo y Boubacar Boris Diop, por citar solo tres plumas imprescindibles.

Chido OnumahChido Onumah. Reputado escritor y periodista nigeriano. Trabaja como tal en su país y en Ghana, Canadá e India. Está involucrado desde hace una década en formar a periodistas en África. Es coordinador del centro panafricano AFRICMIl (en Abuja), enfocado en la educación mediática de los jóvenes. Prepara su doctorado en la Universidad Autónoma de Barcelona. Su último libro se titula 'Time to Reclaim Nigeria'.

Akua DjanieAkua Djanie. Así se hace llamar como escritora. Pero en televisión o en radio es Blakofe. Con más de tres lustros de carrera profesional, Akua es uno de los nombres sonados en los medios de su país. Residente en Reino Unido, fue en 1995, en uno de sus viajes a Ghana, cuando llegó su triunfo televisivo. Hoy vive y trabaja entre ambos países. La puedes encontrar en su página, Blakofe; en la revista New African, en Youtube aquí o aquí...

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