Clovis Rossi

Mais dor, mais soluções

Por: | 10 de octubre de 2011

530 Se é verdade que a dor ensina, o Brasil aprendeu mais com ela do que a Europa está aprendendo.

Não tanto porque somos mais inteligentes, mais preparados, mais sábios. Nada disso. É que a dor no Brasil foi, primeiro, mais intensa, mais profunda, machucou por mais tempo, foi muito tempo de anarquia econômica, inflação obscena, descontrole idem e por aí vai.

A dor nos fez colocar o sistema financeiro brasileiro em relativa ordem, ao contrário do que está acontecendo na Europa. Antes mesmo de ser saudado como potência emergente, o Brasil, no governo Fernando Henrique Cardoso (1995/2002), enfrentou a ameaça de quebradeira generalizada do sistema bancário e deu um jeito, chamado Proer (Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Sistema Financeiro Nacional), do qual omitirei os detalhes técnicos, para falar só da questão política.

No programa brasileiro, os banqueiros perderam o controle das instituições que tiveram que ser resgatadas, ao contrário do que está acontecendo na Europa e aconteceu antes nos Estados Unidos.
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Estou perfeitamente à vontade para falar (bem) do programa brasileiro porque fui um dos seus críticos mais severos à época. Parecia-me que se tratava de uma velha e ignóbil prática, a de socializar os prejuízos e privatizar o lucro - exatamente o que se está fazendo agora com, por exemplo, o banco franco-belga-luxemburguês Dexia.

No Brasil dos anos 90, Ângelo Calmon de Sá, que chegou a ser ministro e era um importante cacique regional (da Bahia) perdeu o seu Banco Econômico.. Também perderam o banco os herdeiros da família Magalhães Pinto, um patriarca da política brasileira, que havia sido igualmente ministro (nos governos militares), fora um dos chefes civis da conspiração que resultou no golpe de 1964, e chegou a ser tido como " presidenciável", se os militares tivessem devolvido rapidamente o poder aos civis, como alguns deles esperavam, em vez de permanecer 21 anos no controle.

Magalhães Pinto era também um mecenas, que dava créditos em condições de pai para filho até para jornalistas, o que lhe garantia uma certa simpatia.

Se personagens desse poder puderam ser afastados de seus bancos pelo governo de um país ainda subdesenvolvido, não vejo razão para que os poderosos governos europeus não possam assumir o controle dos bancos que tiveram que socorrer - e, pelo jeito, vão ter que continuar a socorrer.

A ação do governo brasileiro ajudou a criar um sistema financeiro mais resistente a crises, até porque a regulação é mais rígida no Brasil do que a europeia ou norte-americana. É verdade que parte da resiliência se deve à dor citada no principio: anos de inflação desavergonhada fizeram com que bancos e seus correntistas se tornassem cautelosos ao extremo. No Brasil, não houve nada nem remotamente parecido com o caso das hipotecas "subprime", que foram a primeira fonte da crise de 2008/09.

Quem seria louco de tomar dinheiro emprestado, se a inflação chegou a girar em 80% ao mês, o que significava que a prestação mensal sobre qualquer empréstimo poderia ter aumentos absurdos de um mês para outro, às vezes de um dia para o outro?

Confesso, só entre nós, que temo que o "boom" de crédito dos últimos anos sem inflação possa levar a uma bolha, mas, por enquanto, é apenas um temor íntimo, de quem passou a maior parte da vida sob inflação escandalosa. Não há indicadores econômicos que dêem razão aos meus temores.

Pena que a Europa prefira concentrar a dor na maior parte dos mortais comuns, e poupar seus banqueiros. 

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A analise feita acho simplista. É certo que o Brasil tem uma normativa bancaria bem mais estruturada que o resto da banca ocidental. Na parte correspondente a prudência na concessão de créditos, não posso concordar mais ( caso de hipotecas, 80% do valor de compra, mensalidade inferior ao 30% dos ingressos....). Porém, sendo que a banca brasileira recebe do Governo um juro de +-12% ao ano, de crédito por capital de giro a empresas do 30%, de cheque especial de mais do 125% ao ano, para que vai investir em letras do tesouro gregas ao 2% ao ano ou em fundos subprime ao 6%. Banqueiro brasileiro da risada escutando esse nível de lucro...

A analise feita acho simplista. É certo que o Brasil tem uma normativa bancaria bem mais estruturada que o resto da banca ocidental. Na parte correspondente a prudência na concessão de créditos, não posso concordar mais ( caso de hipotecas, 80% do valor de compra, mensalidade inferior ao 30% dos ingressos....). Porém, sendo que a banca brasileira recebe do Governo um juro de +-12% ao ano, de crédito por capital de giro a empresas do 30%, de cheque especial de mais do 125% ao ano, para que vai investir em letras do tesouro gregas ao 2% ao ano ou em fundos subprime ao 6%. Banqueiro brasileiro da risada escutando esse nível de lucro...

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Sobre el autor

Clovis Rossi. 48 años de periodismo, columnista del diario "Folha de S. Paulo" y del portal Folha.com, ya ejerció todas las funciones posibles en el periodismo, de reportero a editor-jefe, ganador de los premios Maria Moors Cabot, de la Universidad Columbia (NY) y de la Fundación Nuevo Periodismo Iberoamericano, dirigida por Gabriel García Márquez, los dos por el conjunto de la obra.

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