Clovis Rossi

Sobre el autor

Clovis Rossi. 48 años de periodismo, columnista del diario "Folha de S. Paulo" y del portal Folha.com, ya ejerció todas las funciones posibles en el periodismo, de reportero a editor-jefe, ganador de los premios Maria Moors Cabot, de la Universidad Columbia (NY) y de la Fundación Nuevo Periodismo Iberoamericano, dirigida por Gabriel García Márquez, los dos por el conjunto de la obra.

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O câncer do preconceito

Por: | 31 de octubre de 2011

A notícia de que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva está com câncer provocou um brutal surto de preconceito no Brasil.
Tão brutal que levou um de seus melhores jornalistas - e um dos mais sensíveis -, Gilberto Dimenstein, a escrever que sentia "um misto de vergonha e enjoo" ao ler os comentários a respeito de coluna em que falava da doença do ex-presidente.

A mim, o preconceito em si não chega a me surpreender. Irrita-me sempre, é verdade, mas surpreender, não o faz. Convivo (profissionalmente) com Lula faz uns 30 anos, desde o tempo em que era apenas presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo. Tempo suficiente para perceber o preconceito e para me ver obrigado a rebatê-lo mais de uma vez.
Na campanha eleitoral de 1989, por exemplo, o então presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, Mário Amato, disse que, se Lula vencesse, 600 mil empresários (ou 800 mil, já nem me lembro direito) deixariam o país.
Nesse momento, era um preconceito digamos ideológico. Lula e seu Partido dos Traballhadores defendiam políticas de esquerda que, obviamente, o empresariado abomina. Escrevi, então, uma coluna com o título "Terrorismo, não", para dizer que esse tipo de declaração era terrorismo puro.
Ou seja, permitia-se a Lula e ao PT disputar a eleição, mas proibia-se que vencesse.
Não é exatamente democrático.
Quando Lula finalmente venceu, em 2002, o preconceito ideológico foi se desvanecendo, na mesma medida em que ele caminhava para o centro ou até para a direita (ao, por exemplo, nomear um banqueiro, Henrique Meirelles, para a presidência do Banco Central e ao dar a este o comando de políticas essenciais, como a de juros e de câmbio).
Mas sobreviveu - e até se acentuou - o preconceito social. Parte da população brasileira, especialmente de São Paulo, parece não aceitar que um operário, nordestino e sem educação formal além do curso de torneiro-mecânico, chegue à Presidência da República e ainda por cima dê certo, aos olhos de uns 80% do eleitorado, conforme todas as pesquisas.
Muito antes de Lula chegar à Presidência, eu já havia tentado desmontar esse pressuposto, ao lembrar que, durante 500 anos, o Brasil havia sido governado por "doutores" e nem por isso era um país capaz de dar orgulho.
É inútil: o debate político no Brasil - e suspeito que em boa parte do mundo está sendo assim - tornou-se indigente. Quase não há argumentos, há xingamentos.
A internet potencializou essa indigência, como assinala Gilberto Dimenstein: "A interatividade democrática da internet é, de um lado, um avanço do jornalismo e, de outro, uma porta direta com o esgoto de ressentimento e da ignorância".
Como demonstração de que essa "porta direta" não é um fenômeno só brasileiro, basta ler Daniel Innerarity em "El País" da semana passada, quando esse excelente analista fala das redes sociais, nas quais "o confronto com o diferente tende a ser substituído pela indignação em companhia do similar, uma emoção se alimenta comunicando com quem comparte a mesma irritação".

Estabelece-se, nesse ambiente virtual rarefeito, uma troca de preconceitos: os pró-Lula gritam que qualquer crítica a ele é crime de lesa-majestade. Os anti-Lula torcem para que o câncer prospere, uma coisa dura de se colocar por escrito mas a vida nesse universo de rancores é dura mesmo. 

El cáncer del prejuicio

Por: | 31 de octubre de 2011

La noticia del cáncer del expresidente Luiz Inácio Lula da Silva provocó un brote de prejuicio brutal en Brasil. Tan brutal que uno de sus mejores y más sensibles periodistas, Gilberto Dimenstein, llegó a escribir que sentía “una mezcla de vergüenza y dolor de tripa” al leer los comentarios sobre su columna, en la que hablaba de la enfermedad del expresidente.

El prejuicio no llega a sorprenderme. Me irrita siempre, es verdad, pero no me sorprende. Convivo profesionalmente con Lula desde cuando era el presidente del Sindicato de los Metalúrgicos de São Bernardo do Campo (ciudad vecina de São Paulo), hace 30 años. Tiempo suficiente para notar el prejuicio y verme obligado a rebatirlo más de una vez.

En la campaña electoral de 1989, el entonces presidente de la Federación de las Industrias del Estado de São Paulo, Mário Amato, dijo que si Lula ganara, 600 mil empresarios (o 800 mil, ya no me acuerdo exactamente) dejarían el país.

Se puede decir que en este momento era un prejuicio ideológico. Lula y su Partido de los Trabajadores (PT) defendían políticas de izquierdas, obviamente abominadas por los empresarios. Escribí entonces una columna con el título “Terrorismo, no”, para hablar del terrorismo de este tipo de declaración. Es decir, se permitía a Lula y al PT que disputaran las elecciones pero se les prohibía vencer. No es exactamente democrático.

Cuando Lula venció finalmente en 2002, el prejuicio ideológico se desvanecía a medida que él caminaba hacia el centro o hacia la derecha (cuando, por ejemplo, nombró al banquero Henrique Meirelles como presidente del Banco Central, responsable de políticas esenciales como el IPC y el cambio). Pero el prejuicio social sobrevivió y, encima, se acentuó.

Parte de la población brasileña, especialmente de São Paulo, parece no aceptar el hecho de que un operario del nordeste y sin educación formal (aparte del curso de tornero-mecánico), llegase a la Presidencia de la República y, de remate, saliese bien desde el punto de vista del 80% del electorado, como indican los sondeos.

Yo ya había intentado desmontar este presupuesto recordando que Brasil había sido gobernado por “doctores” durante 500 años, antes de que Lula llegase a la Presidencia, y ni por esto era un país del cual uno podría enorgullecerse. Es inútil: el debate político en Brasil se tornó indigente, y sospecho de que en gran parte del mundo ha sido así también. No hay argumentos sino agresiones verbales.

Internet potenció esta indigencia, como señala Gilberto Dimenstein: “La interactividad democrática de internet es, por una parte, el avance del periodista, y de otro, una puerta directa al agua residual del resentimiento y de la ignorancia”. Si leemos a Daniel Innerarity en El País de la semana pasada, demostramos que esta “puerta directa” no es un fenómeno brasileño aislado. Este excelente analista habla de las redes sociales, que, para él, lo son cada vez menos “en la medida en que la confrontación con el diferente tiende a ser sustituida por la indignación en compañía del similar, una emoción que se alimenta comunicando con quien comparte la misma irritación.”

En este ambiente virtual enrarecido se establece un cambio de prejuicios: los pro-Lula gritan que cualquier crítica hacia él es delito de lesa-majestad. Los anti-Lula alientan para que el cáncer prospere, algo duro de poner por escrito, pero la vida en este universo de rencores es dura.

Traducción: Beatriz Borges

Dilma, a gerente distraída

Por: | 27 de octubre de 2011

Deve ser todo um recorde mundial: em escassos nove meses, seis ministros brasileiros foram demitidos, cinco deles por suspeita de corrupção. O sexto (Nelson Jobim, da Defesa) foi afastado por incontinência verbal, que não deixa de ser uma forma de corrupção.
O mais curioso é que há um outro provável recorde mundial nessa história: a responsável por todas as demissões, a presidente Dilma Rousseff, não só não teve sua imagem arranhada como está sendo apontada, em certos círculos, como responsável por uma faxina na Esplanada dos Ministérios, aquela longa avenida de Brasília, em que ficam enfileirados os ministérios (não todos, porque são tantos que não cabem lá, por grande que seja a avenida).
Esse tipo de leitura é, no mínimo, superficial. Baseia-se no fato - real - de que todos os afastados não são indicações de Dilma, mas herança de seu padrinho e antecessor 
Luiz Inácio Lula da Silva. É verdade, mas é apenas parte da verdade.
No governo Lula, Dilma era uma espécie de primeiro-ministro, como chefe da Casa Civil, supervisora geral do governo. Ora, todos os escândalos que acabaram resultando na demissão de ministros referem-se a fatos ocorridos no governo do qual Dilma era a supervisora. Portanto, trata-se de uma gerente sumamente distraída, que não só não se deu conta do que ocorria às suas costas (ou à sua frente) como aceitou designar para o ministério pessoas que, se tivesse sido devidamente supervisionadas, jamais ocupariam outra vez cargos públicos.
Pior: os demitidos foram substituídos por representantes das mesmas famílias políticas (ou "famiglias", ao gosto do leitor), que se tornaram donas de fatias do governo. É uma disfunção já clássica na política brasileira: o presidente nomeia um político para chefiar um ministério e este preenche todos os cargos de confiança, abaixo dele, com seus correligionários.
Cada ministério acaba virando uma "caixa preta" - o que é um convite a negócios, legais ou irregulares, com seus amigos e partidários. Posto de outra forma, o ministério trabalha para o partido, não para o público.
Torna-se assim perfeitamente razoável que uma colunista política de grande prestígio, como Eliane Cantanhêde, da "Folha de S. Paulo", já especule com a possibilidade de que o recorde mundial de demissões em poucos meses logo seja batido pelo próprio governo que o estabeleceu.  

Dilma, la gerente distraída

Por: | 27 de octubre de 2011

Debe ser un récord mundial: en tan solo nueve meses, seis ministros brasileños han sido destituídos, cinco de ellos por sospechas de corrupción. El sexto (Nelson Jobim, de Defensa) fue apartado por incontinencia verbal, lo que no deja de ser una forma de corrupción.

Lo más curioso es que probablemente haya otro récord en esta historia: la responsable de todos las destituciones, la presidenta Dilma Rousseff, a pesar de haber visto dañada su imagen, en algunos círculos le reconocen haber conseguido una limpieza en la Esplanada de los Ministerios, aquella larga avenida de Brasilia, donde los edificios ministeriales están en fila (no todos, porque aunque la avenida sea grande, son tantos que no caben).

Este tipo de lectura es, como mínimo, superficial. Se basa en el hecho - real - de que todos los que fueron apartados no habían sido nombrados por Dilma, sino una herencia de su padrino y antecesor Luiz Inácio Lula da Silva. Es verdad, pero solamente una parte de ella.

En el Gobierno de Lula, Dilma era un 'primer ministro', como el jefe de la Presidencia, una supervisora general del gobierno. Todos los escándalos que provocaron los ceses se refieren a hechos que ocurrieron en el gobierno supervisado por Dilma. Por lo tanto, se trata de una gerente sumamente distraída, que no se dio cuenta de lo que pasaba a sus espaldas (ni delante de ella). Encima aceptó algunos nombres para el Ministerio que, de haber sido debidamente supervisados, jamás hubieran vuelto a ocupar cargos públicos.

Aún peor: a los cesados les sustituyeron representantes de conocidas familias de políticos, que se han convertido en dueños de sectores del gobierno. Es una disfunción clásica en la política brasileña: el presidente nombra un político para ser jefe de un ministerio y este, a su vez, rellena todos los cargos de confianza con sus correligionarios.

Cada ministerio se transforma en una caja negra, una invitación a hacer negocios, legales o no, con sus amigos y partidarios. Dicho de otra manera, el ministerio trabaja para el partido, no para el público.

De este modo, es perfectamente razonable que una columnista política de gran prestigio como Eliane Catanhêde, del periódico Folha de S. Paulo, especule con la posibilidad de que en pocos meses el récord mundial de destituciones sea batido por el propio gobierno que lo estableció.

Traducción: Beatriz Borges

Lições do Sul

Por: | 24 de octubre de 2011




Um dos mais competentes e experimentados diplomatas brasileiros lembrava, dias atrás, que passara a maior parte da vida ouvindo de seus colegas do mundo rico - europeus e norte-americanos - sermões sobre como nós, os selvagens do Sul remoto, deveríamos nos comportar.
E surpreendia-se ao verificar que, nas conversas que precederam a viagem da presidente Dilma Rousseff a Bruxelas, para a cúpula com a União Europeia, eram os do Sul que pediam aos europeus que fizessem a "lição de casa"- ou seja, que pusessem ordem na economia.
A própria presidente, nos encontros reservados com Herman van Rompuy, o presidente do Conselho Europeu, e José Manuel Durão Barroso, o presidente da Comissão, relembrou as lições que as crises dos anos 80/90 haviam ensinado à América Latina. Depois, aos jornalistas, Dilma diria que "a saída da crise somente virá pelo estímulo ao crescimento econômico"
Rompuy não discorda dessa tese, é claro, mas insistiu uma e outra vez que a Europa precisa, sim, de uma dose forte de austeridade sem o que não sairá da crise. Alinha-se, pois, com os que o Nobel de Economia Paul Krugman chamou, certa vez, de "fanáticos da dor".
Se a pregação de Dilma - a meu ver correta - está sendo inútil até agora, quem sabe a liderança europeia preste atenção a outra lição vinda do Sul, esta na forma do vitorioso sorriso de Cristina Fernández de Kirchner, reeleita com folga inédita presidente da Argentina.
O que tem uma coisa a ver com a outra? Basta olhar para a foto abaixo, que mostra os protestos na Argentina dez anos atrás. Não fosse pela bandeira, daria para dizer que é na Grécia hoje.

Não é, mas há um ponto de contato entre a Argentina-2001 e a Grécia-2011 que a Europa demorou demais para enxergar: sem atenuar o peso da dívida, não há saída para a crise.
A Argentina não foi ao "default" por uma decisão voluntariosa ou ideológica de seus governantes da época, mas por absoluta falta de dinheiro para pagar a conta. Como a Grécia de hoje.
O "default" não é obviamente uma arma a que se possa recorrer alegremente, mas é um instrumento de última instância.
Para a Argentina, acabou ajudando a sair da mais profunda crise de sua história, como a crise da Grécia é também considerada a mais grave, se não de sua história, que é bem mais longa, pelo menos dos últimos muitos anos.
Quando a Argentina recorreu ao calote da dívida, todos os economistas - e colunistas econômicos - ortodoxos começaram a gritar: ah, a Argentina está condenada ao inferno para todo o sempre.
Engano. Todos os indicadores econômico-sociais argentinos do pós-default são melhores do que eram no momento de sua adoção.
Se se olhar para o lado político, é a mesma coisa: não há dirigente europeu que possa exibir hoje um sorriso como o de Cristina Kirchner.
Não é que ela tenha sido a responsável pelo "default". É apenas beneficiária indireta: seu marido, Néstor, só se elegeu porque seu adversário no segundo turno que não houve, Carlos Menem, teve que desistir porque sabia que sua rejeição era colossal - e merecida. Afinal, foram suas políticas que levaram ao colapso de 2001. Era, pois, também a ele que os argentinos gritavam "que se vayan todos".
O alívio provocado pela possibilidade de dar outro uso aos recursos para pagamento da dívida ajudou a dar popularidade a Néstor, que ele emprestou a Cristina, que se elegeu em 2007 e se reelege agora.
Repito: "default" não é uma boa política econômica. Mas, quando é uma necessidade, adotá-lo pode ser mais eficaz do que insistir apenas na dor. 
  
 
 

Lecciones del Sur

Por: | 24 de octubre de 2011

Uno de los diplomáticos brasileños más competentes y experimentados recordaba, días atrás, que pasó la mayor parte de su vida escuchando sermones de sus compañeros del mundo rico - europeos y estadounidenses - sobre como nosotros, los salvajes del Sur remoto, deberíamos comportarnos.

Y se sorprendía cuando verificaba que, en las conversaciones anteriores al viaje a Bruselas de la presidenta Dilma Rousseff para reunirse con la cúpula de la Unión Europea, eran los del Sur los que pedían a los europeos que hicieran sus deberes – es decir, que pusieran orden a la economía.

La propia presidenta, en los encuentros reservados con Herman van Rompuy, presidente del Consejo Europeo, y José Manuel Durão Barroso, presidente de la Comisión, les hizo recordar las lecciones que las crisis de los años ochenta y noventa habían enseñado a América Latina. Después, Dilma diría a los periodistas que "la salida de la crisis vendrá solamente con el estímulo al crecimiento económico". Rompuy no discrepa de esta tesis, por supuesto, pero insistió una y otra vez que Europa necesita de una fuerte dosis de austeridad. Él se alinea, por lo tanto, con los que el Nobel de Economía, Paul Krugman, llamó alguna vez de "fanáticos del dolor".

Si las recetas de Dilma - desde mi punto de vista, correctas - están siendo inútiles hasta ahora, quién sabe si el liderazgo europeo estará atento a otra lección del Sur, esta vez en la forma de la sonrisa victoriosa de Cristina Fernández de Kirchner, reelegida presidenta de Argentina con una ventaja sin precedentes.

¿Qué tiene que ver una cosa con la otra? Basta mirar la foto de abajo, que enseña las protestas en Argentina diez años atrás. Si no fuese por la bandera se podría decir que se trata de la Grecia de hoy. No lo es, pero hay algo en común entre la Argentina de 2001 y la Grecia de 2011 que Europa tardó demasiado en ver: no hay salida para la crisis sin mitigar el peso de la deuda.

Argentina fue a la suspensión de pagos por una absoluta falta de dinero para pagar la cuenta (como la Grecia de hoy), no por una decisión voluntariosa o ideológica de sus gobernantes en aquel momento.

La suspensión de pagos no es obviamente un arma a la que se pueda recurrir alegremente, pero es un instrumento de última instancia. La medida ayudó a Argentina a salir de la más profunda crisis de su historia. La de Grecia se considera la más grave, quizás no de su historia, que es bastante más larga, pero por lo menos de los últimos años.

Cuando Argentina suspendió el pago de la deuda, todos los economistas - y columnistas económicos - ortodoxos empezaron a gritar: ¡Ah, Argentina está condenada al infierno para siempre!
Error. Todos los indicadores socioeconómicos argentinos del periodo posterior a la suspensión de pagos son mejores de lo que eran en el momento de su adopción.
Si miramos el lado político, pasa lo mismo: no hay dirigentes europeos que puedan exhibir hoy una sonrisa como la de Cristina Kirchner.

No es que ella haya sido responsable de la suspensión de pagos. Es solamente la beneficiaria indirecta: su marido, Néstor, solo fue elegido porque su adversario, Carlos Menen, renunció antes de llegar a la segunda vuelta, al ver que sufriría un rechazo colosal (y merecido). Al final, fueron sus políticas que llevaron al colapso de 2001. Se referían también a él cuando los argentinos gritaban "que se vayan todos".

El alivio provocado por la posibilidad de dar otro uso a los recursos para el pago de la deuda ayudó a dar popularidad a Néstor, la que prestó a Cristina, elegida en 2007 y reelecta ahora.

Repito: la suspensión de pagos no es una buena política económica. Pero, cuando es una necesidad, adoptarlo puede ser más eficaz que insistir solamente en el dolor.

Traducción: Beatriz Borges

Brasil e Líbia, do lado errado da história

Por: | 20 de octubre de 2011



A morte de Muammar Gaddafi fecha um capítulo em que a diplomacia brasileira, das mais competentes do planeta, ficou do lado errado da história.
O Brasil, que ocupa este ano um lugar - rotativo - no Conselho de Segurança das Nações Unidas, absteve-se na votação da resolução que acabaria implementando uma zona de exclusão aerea sobre a Líbia, utilizada na sequência para atacar as forças do ditador líbio. É inegável que tais ataques foram essenciais para a queda de Gaddafi.
O argumento da diplomacia brasileira para abster-se não é ruim, filosoficamente: parte do princípio de que a ação militar deve ser, sempre, o último recurso. Bonito de enunciar, mas, nas circunstâncias, inaplicável.
Ajuda-memória: quando o Conselho de Segurança votou a resolução sobre a zona de exclusão aerea, as tropas de Gaddafi estavam às portas de Benghazi, o bastião rebelde, prontas para um massacre pré-anunciado. 
Não aceitar a intervenção militar, naquela altura, era objetivamente autorizar o massacre. E, ainda por cima, condenar as Nações Unidas à irrelevância que já havia demonstrado por exemplo em Srebrenica e em Ruanda. Uma atitude péssima em qualquer circunstância e mais ainda para um país que se pretende potência emergente com desejos de atuar em todas as partes do mundo, não apenas na sua vizinhança imediata.
Discuti a omissão com diplomatas brasileiras umas três ou quatro vezes. Em nenhum dos diálogos, foram capazes de responder à pergunta essencial: como fazer, sem a intervenção afinal operada, para evitar o massacre, de resto iminente?
O pior é que a diplomacia brasileira está ficando do lado errado da história também no caso da Síria. Recusa-se a endossar qualquer moção dura de condenação ao regime. Como se fosse pouco, o Brasil participou de missão do IBAS (Índia, Brasil e África do Sul) a Damasco, ao final da qual o grupo emitiu comunicado em que condenava a violência das duas partes, aceitando, portanto, o argumento da ditadura Assad e equiparando vítimas e algozes.
Quando discuti o assunto com representantes do Itamaraty, admitiram que a nota fora um equívoco. Não obstante, na recente reunião do IBAS em Pretória, o comunicado final volta a falar em violência genericamente, sem especificar que se trata da repressão do regime. Menos mal que a presidente Dilma Rousseff, em declarações à imprensa, foi, ela sim, específica: condenou a repressão. Ponto.
Mas o que fica, nos anais da diplomacia, é o comunicado oficial, anódino, tímido, incapaz de um "aggiornamento" que os ventos da primavera árabe exigem.
Só dá razão aos críticos internos da diplomacia da era Lula, que acham que o então presidente foi caloroso demais com ditadores de diferentes latitudes, entre eles o próprio Gaddafi, que Vamos combinar que um líder democrático - como Lula inequivocamente é - pode e deve escolher "irmãos" e "amigos" bem melhores. 

Brasil y Libia, en el lado equivocado de la historia

Por: | 20 de octubre de 2011

La muerte de Muamar el Gadafi cierra un capítulo en el que la diplomacia brasileña, una de las más competentes del planeta, se quedó en el lado equivocado de la historia.

Brasil, que ocupa este año un lugar - rotativo - en el Consejo de Seguridad de la ONU, se abstuvo en la votación de la resolución para implementar una zona de exclusión aérea sobre Libia, utilizada enseguida para atacar a las fuerzas del dictador libio. Es innegable que dichos ataques fueron esenciales para la caída de Gadafi. El argumento de la diplomacia brasileña para abstenerse no es malo, filosóficamente: se basa en la primicia de que la acción militar debe ser, siempre, el último recurso. Hermoso de enunciar, pero, en las actuales circunstancias, inaplicable.

Ayuda-memoria: cuando el Consejo de Seguridad votó la resolución acerca de la zona de exclusión aérea, las tropas de Gadafi estaban a las puertas de Bengasi, el bastión rebelde, listas para una masacre preanunciada.

En aquél momento, no aceptar la intervención militar era objetivamente autorizar la masacre. Y, encima, condenar la ONU a su irrelevancia, demostrada anteriormente, por ejemplo, en Srebrenica y en Ruanda. Una mala actitud en cualquier circunstancia y más aún para un país que pretende ser potencia emergente y que desea actuar en todas las partes del mundo, no solamente en su vecindario.

Discutí la omisión con diplomáticos brasileños en tres o cuatro ocasiones. Ellos no fueron capaces, en ninguno de los diálogos, de contestar a la pregunta esencial: ¿cómo hacer para evitar la masacre inminente, sin la intervención que al final se llevó a cabo?

Lo peor es que la diplomacia brasileña está del lado equivocado de la historia también en el caso de Siria. Brasil se niega a apoyar cualquier moción de condenación severa al régimen. Por si fuera poco, Brasil participó de la misión del IBAS (India, Brasil y Sudáfrica) a Damasco. Al final de la misión, el grupo emitió un comunicado en el que condenaba la violencia de ambas partes, aceptando, por lo tanto, el argumento de la dictadura de Assad y equiparando víctimas y homicidas.

Cuando discutí el tema con representantes del Itamaraty (el Ministerio de Relaciones Exteriores de Brasil), admitieron que la nota había sido un error. No obstante, en la reciente reunión de IBAS en Pretória (Sudáfrica), el comunicado final volvía a hablar de violencia de forma genérica, sin especificar que se trataba de la represión del régimen. Menos mal que la presidenta Dilma Rousseff, en declaraciones a la prensa, sí fue específica: condenó la represión. Punto.

Pero lo que queda en los registros de la diplomacia es el comunicado oficial, anodino, tímido, e incapaz de una "actualización", que los vientos de la primavera árabe exigen.

Esto solamente da la razón a los críticos internos de la diplomacia durante la era Lula, que pensaban que el entonces presidente había sido demasiado caluroso con dictadores de distintas latitudes, entre ellos Gadafi, que Lula trató como "mi amigo, mi hermano y líder" en una reunión de la Unión Africana, en 2009.

Que quede entre nosotros: un líder democrático - que Lula sin duda lo es - puede y debe escoger mejores "hermanos" y "amigos".

Traducción: Beatriz Borges

Como perder o Mundial sem jogar

Por: | 17 de octubre de 2011

Silva
O único Mundial de futebol organizado pelo Brasil, no já remoto ano de 1950, terminou em tragédia nacional: a seleção brasileira perdeu a final para o Uruguai (1 a 2), quando era favoritíssima e ainda por cima precisava apenas do empate para ser campeã (o modelo de disputa era diferente do atual).

Nuevo MaracanãNasceu naquele 16 de julho o "Maracanazo", como expressão do triunfo maiúsculo dos uruguaios, e a semente da expressão "complexo de vira-lata" (perro callejero em espanhol), inventada pelo teatrólogo Nélson Rodrigues, o melhor escafandrista da alma brasileira, para designar a disseminada sensação de que éramos frouxos nas horas decisivas. 

Futuro estádio del Corinthians, São PauloO complexo pode ter se diluído nos últimos anos, mas, meio século depois daquele fracasso, é de novo um Mundial de futebol - o que o Brasil organizará em 2014 - que volta a assombrar o país tropical.
Desde que o país foi anunciado como sede do torneio, começou a preocupação com os custos das obras a ele relacionadas. No domingo, o jornal "O Estado de S. Paulo" pôs números objetivos nesse incômodo difuso: quatro anos depois de ganhar o direito de sediar o Mundial, "ninguém sabe em quanto ficará a conta da empreitada", constatou o jornal.

Futuro estádio de Amazonia (Manaus)Os números variam de mês para mês e de fonte de informação para fonte de informação: no mês passado, o governo estimava o custo da Copa do Mundo em R$ 27,1 bilhões (€ 11,31 bilhões ou mil millones, como preferem os hispanohablantes), computando estádios, portos, aeroportos e mobilidade urbana. Muito bem. Pena que o custo calculado apenas nove meses antes, em janeiiro, era de R$ 23,1 bilhões (€ 9,64 bilhões).

Ou seja, em nove meses, o custo aumentou 14%.

Mas essa diferença, já importante, fica pálida quando se considera que a Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base calcula que o custo será sideralmente mais elevado, na altura de R$ 112 bilhões (€ 46,7 bilhões)
 
Em um país cronicamente assolado pela corrupção, é inevitável que essa dança de números desperta a suspeita que dinheiro público será fatalmente desviado. Ainda mais que no mesmo fim de semana em que o "Estado" fazia tais contas, a revista "Veja" denunciava um caso de corrupção supostamente envolvendo o ministro Orlando Silva, dos Esportes, exatamente o responsável mais direto pelo Mundial.

Ao incômodo com a perspectiva de desvio de verbas públicas soma-se o temor de que o Mundial sirva apenas para construir novos estádios, sem deixar uma herança em equipamentos de uso mais geral, ao contrário do que ocorreu, por exemplo, com Barcelona e seus Jogos Olímpicos.

Diz o "Estado": "Os estádios ficarão prontos a tempo. O mesmo não se pode garantir em relação aos aeroportos e às 49 obras de mobilidade urbana ligadas à Copa". Reforça Melchiades Filho, colunista da "Folha de S. Paulo": "O descontrole orçamentário e a sucessão de fraudes mostraram que dificilmente haverá legados positivos - fora ou dentro do campo".

Explico o "dentro do campo": depois de fracassar nos Mundiais da Alemanha, em 2006, e da África do Sul, em 2010, a seleção brasileira ainda não conseguiu convencer o público de que não haverá em 2014 outro "Maracanazo" ou coisa pior, como seria nem sequer chegar à final.

Cómo perder el Mundial sin jugar

Por: | 17 de octubre de 2011

El único Mundial de fútbol organizado por Brasil, en el remoto año de 1950, terminó en tragedia nacional: la selección brasileña perdió la final contra Uruguay (1 a 2), cuando era la favorita y, además, solamente necesitaba un empate para ser campeona (el sistema de clasificación era diferente del actual).

En aquel 16 de julio nació el Maracanazo, como expresión del triunfo mayúsculo de los uruguayos, y nació también el germen de la expresión "complejo de perro callejero", inventada por el dramaturgo Nelson Rodrigues, el mejor "buceador" del alma brasileña, para designar la sensación compartida de que éramos flojos en momentos decisivos.

El complejo puede haberse diluido en los últimos años, pero, medio siglo después de aquel fracaso, nuevamente un Mundial de fútbol - el que Brasil organizará en 2014 - vuelve a inquietar al país tropical. Desde que se anunció que el país sería la sede del torneo, empezó la preocupación por los costes de las obras relacionadas con él. El pasado domingo, el periódico O Estado de S. Paulo puso números objetivos a esta sensación de molestia generalizada: cuatro años después de ganar el derecho a ser sede del Mundial, "nadie sabe cuánto costará el evento", constató el periódico.

Los números varían de mes a mes y según la fuente de información: en el mes pasado, el Gobierno estimaba el coste de la Copa del Mundo en 11,31 billones de euros, sumando estadios, puertos, aeropuertos y movilidad urbana. Muy bien. El coste calculado solamente nueve meses antes (en enero) era, sin embargo, de 9.64 billones de euros.

O sea, en nueve meses, el coste aumentó un 14%.

Pero esta diferencia, ya importante, palidece en comparación con la estimación de la Asociación Brasileña de Infraestructura e Industrias de Base, que calcula que el coste será sideralmente más elevado, sobre los 46,7 billones de euros.

En un país asolado por una corrupción crónica, es inevitable que este baile de números despierte la sospecha de que el dinero público será fatalmente desviado. Es más: que en el mismo fin de semana en el que el periódico Estado hacía dichas cuentas, la revista Veja denunciaba un caso de corrupción en el que supuestamente estaba implicado el ministro de deportes, Orlando Silva, responsable directo del Mundial.

A la perspectiva de desvío de dinero público se suma el temor de que el mundial sirva solamente para construir nuevos estadios sin dejar una herencia en infraestructuras de uso más general, lo opuesto de lo que ha ocurrido, por ejemplo, en Barcelona y sus Juegos Olímpicos.

Dice Estado: "Los estadios estarán listos a tiempo. No se puede garantizar lo mismo respecto a los aeropuertos y las 49 obras de movilidad urbana relacionadas con el Mundial". Lo recalca Melchiades Filho, columnista de Folha: "El descontrol presupuestario y la sucesión de fraudes demuestran que difícilmente habrá legados positivos – fuera o dentro del campo."

Explico el "dentro del campo": después de fallar en los Mundiales de Alemania, en 2006, y en el de Sudáfrica, en 2010, la selección brasileña todavía no ha conseguido convencer el público de que no habrá otro maracanazo en 2014, o algo peor, que ni siquiera lleguen a la final.

Traducción: Beatriz Borges

El País

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