Clovis Rossi

Sobre el autor

Clovis Rossi. 48 años de periodismo, columnista del diario "Folha de S. Paulo" y del portal Folha.com, ya ejerció todas las funciones posibles en el periodismo, de reportero a editor-jefe, ganador de los premios Maria Moors Cabot, de la Universidad Columbia (NY) y de la Fundación Nuevo Periodismo Iberoamericano, dirigida por Gabriel García Márquez, los dos por el conjunto de la obra.

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A festa dos ratos

Por: | 30 de noviembre de 2011


Senador Sérgio Guerra

O PSDB (Partido da Social Democracia Brasileira) mergulhou no passado para dele extrair um filmete que seu maior rival, o PT (Partido dos Trabalhadores), usou faz nove anos, para demonstrar que a política brasileira era um ninho de ratos corroendo o país.
O filmete do PT começa com uma imagem, que ficou famosa à época, por mostrar ratos comendo a bandeira do Brasil, uma clara tentativa de mostrar indignação com a corrupção disseminada.
Foi antes de o PT chegar ao poder federal. Agora, que nele está instalando há nove anos, vem a vingança dos rivais: no filmete do PSDB que está no ar, aproveitando o horário de propaganda política assegurado pela legislação, um locutor mostra a propaganda petista e diz:
"Há nove anos, nessa propaganda, o PT anunciava que, se o Brasil não acabasse com a corrupção, a corrupção iria acabar com o Brasil. Há nove anos, o PT está no poder... e o que era apenas uma propaganda do PT [aparece um rato comendo um pedaço da bandeira, arrotando e dando risada]... virou a realidade deste governo".

Desgraçadamente, os dois lados parecem ter razão na sua propaganda: hoje, com o PT, antes, com outros partidos, PSDB inclusive, os ratos fazem a festa com recursos públicos.



Pior: a maior parte dos políticos não tem o menor pudor em assumir imoralidades. Caso mais recente: Cândido Vaccarezza, deputado do PT e líder do governo na Câmara dos Deputados, saiu em defesa do ministro do Trabalho, Carlos Lupi, sobre o qual pesa a acusação (a mais recente entre tantas) de que foi funcionário fantasma da Câmara: passou seis anos ganhando sem aparecer na Casa. Vivia no Rio de Janeiro.
Vaccarezza não vê nenhum problema nessa situação, a partir do argumento escandaloso de que todo mundo faz a mesma coisa.
"A maioria [dos assessores de deputados] jamais pisou na Câmara. Porque a maioria dos funcionários dos deputados fica nos Estados", conformou-se Vaccarezza, em vez de indignar-se com essa imoralidade coletiva.
Não é apenas uma imoralidade. É ilegal também, pois é obrigatório que trabalhem em Brasília os ocupantes de Cargos de Natureza Especial, rótulo que serve para remunerar suculentamente os amigos dos parlamentares elevados a cargos públicos.
Lupi é do PDT (Partido Democrático Trabalhista), Vaccarezza é do PT, mas o presidente nacional do PSDB, Sérgio Guerra, também já foi flagrado pela mídia dando emprego a até oito parentes de um assessor em seu gabinete oficial (portanto pago com dinheiro público) de Recife (Pernambuco), bem longe de Brasília.
Tudo somado, parece evidente - e triste - que todo partido que sair do governo para a oposição terá direito a exibir um filminho com a festa dos ratos sobre a bandeira brasileira, porque são todos farinha do mesmo saco como se diz no Brasil.

La fiesta de las ratas

Por: | 30 de noviembre de 2011

El PSDB (Partido de la Socialdemocracia Brasileña) rescató un spot publicitario de hace nueve años de su mayor rival, PT (Partido de los Trabajadores), en el que demostraba que la política brasileña era un nido de ratas deteriorando el país.

El spot publicitario del PT, famoso en aquella época, empieza con una imagen de ratas comiendo la bandera de Brasil, un claro intento de enseñar la indignación por la diseminada corrupción.

Esto fue antes que el PT llegara al poder federal. Ahora, nueve años después de que el Partido de los Trabajadores está en el Gobierno, sus rivales se vengan: en el spot publicitario del PSDB, presentado durante el horario de propaganda política asegurado por la legislación, un locutor enseña la propaganda del PT y dice:

“En esta propaganda de nueve años atrás, el PT anunciaba que si Brasil no acabase con la corrupción, la corrupción acabaría con Brasil. Hace nueve años que el PT está en el poder… y lo que era solamente una propaganda del PT [aparece una rata comiendo un trozo de la bandera, eructando y riéndose]… se transformó en la realidad de este gobierno”.

Por desgracia, aparente ambos lados tienen razón en su propaganda: tanto hoy con PT como antes con otros partidos, entre ellos el PSDB, las ratas hacen su fiesta con los recursos públicos. Lo peor: la mayoría de los políticos no tienen el menor pudor en asumir las inmoralidades.

El caso más reciente es el del diputado del PT y líder del gobierno en la Cámara de los Diputados, Cândido Vaccarezza, que salió en defensa del ministro del Trabajo, Carlos Lupi, acusado de ser un funcionario fantasma, ya que pasó seis años cobrando sin trabajar. Vivía en Rio de Janeiro.

Vaccarezza no ve problema en esta situación y usa el escandaloso argumento de que todo el mundo hace lo mismo. “La mayoría (de los asesores de diputados) jamás vino a la Cámara, porque la mayoría de los funcionarios de los diputados se quedan en el Estado”, dijo Vaccarezza, resignado, en lugar de indignarse con esta inmoralidad colectiva.

No se trata solamente de una inmoralidad. También es ilegal porque los que ocupan "Cargos de Naturaleza Especial", etiqueta que sirve para remunerar jugosamente los amigos de los parlamentares que ocupan cargos públicos, deben trabajar obligatoriamente en Brasilia.

Lupi es del PDT (Partido Democrático del Trabajo), Vaccarezzaes del PT. Pero también el presidente nacional del PSDB, Sérgio Guerra, fue pillado en flagrante por los medios de comunicación empleando hasta ocho parientes de un asesor en su gabinete oficialde Recife (Pernambuco), pagado con dinero público y bastante lejos de Brasília.

A todo esto sumado, parece evidente y triste que cualquier partido que deje el gobierno tenga el derecho a exhibir un spot publicitario sobre la oposición, con la fiesta de las ratas sobre la bandera brasileña, porque todos son harina del mismo costal.

Traducción: Beatriz Borges

Negócios da China

Por: | 28 de noviembre de 2011

Quase tanto quanto o futebol, biquíni é um produto com a cara do Brasil, em qualquer praia do mundo. Mas até ele foi afetado pela onipresença da China, que faz de tudo mais barato.
Esse detalhe ajuda a entender o olhar menos apaixonado que os brasileiros estão passando
a dedicar a China, por mais que o pantagruélico apetite chinês - especialmente por matérias primas - tenha sido essencial para a decolagem da economia brasileira no início do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, em 2003.
Exportar para a China era vital em um momento em que o mercado interno brasileiro ainda não tinha a vitalidade atual.

Agora, no entanto, vem um certo desapontamento, de que dá prova reportagem publicada domingo pelo jornal "Folha de S. Paulo".

Nela se demonstra que a China investe no Brasil só metade do que anuncia. Levantamento feito pelo jornal prova que, dos principais projetos de investimento chineses, anunciados em 2009 e 2010, 25% não saíram do papel e 29% são, na realidade, investimentos brasileiros ou de empresários de outras nacionalidade.
O caso talvez mais emblemático é o da empesa taiwanesa de eletrônicos Foxconn, que anunciou investimentos de US$ 12 bilhões anunciados, mas recentemente indicou que quer contribuir apenas com a tecnologia.

O investimento da Foxconn foi anunciado pessoalmente pela presidente Dilma Rousseff, durante sua visita à China, em abril, e ganhou as primeiras páginas de todos os principais jornais brasileiros à época.



Dilma brinda com Hu Jintao, durante visita à China, em abril

O ministro de Ciência e Tecnologia, Aloizio Mercadante, promoveu uma cena patética, no dia seguinte ao anúncio, ao se apresentar para uma entrevista coletiva armado de um IPad com um "press release" da empresa, que leu do começo ao fim, como se fosse relações públicas da companhia, em vez de ministro de Estado.
A cena, ridícula naquele momento, torna-se ainda mais patética agora que se verifica que o investimento não tem nem remotamente o porte que a presidente anunciou.
Mas a frustração brasileira vem de antes do levantamento feito pela "Folha". Dilma Rousseff levou à China uma lista de queixas que começavam pela qualidade do comércio bilateral. A China pasou a ser, desde 2009, o principal parceiro comercial do Brasil, mas cerca de 90% das exportações brasileira estão concentradas em apenas quatro produtos (minério de ferro, soja, petróleo e celulose), ao passo que quase toda a importação se compõe de bens manufaturados de alto valor agregado.

Os produtores brasileiros queixam-se ainda de que a China exporta calçados, tradicional produção brasileira, usando terceiros países (Malásia e Vietnã). Até 2002, calçados brasileiros dominavam o mercado no segmento de qualidade. Mas, entre 2004/2009, a exportação caiu pela metade.

Tudo somado, tem-se que a competição com os produtos chineses, no mercado interno ou em terceiros mercados, causou a perda de entre 70 mil e 300 mil empregos na indústria, conforme diferentes cálculos empresariais.
Há ainda a questão cambial. Não são apenas os Estados Unidos que se queixam do 

câmbio chinês, muito desvalorizado, que dá uma vantagem indevida à produção da China, ainda mais quando combinado com a valorização do real brasileiro. Na época da visita de Dilma à China, estudo do Instituto Peterson de Economia Internacional mostrava que o yuan chinês deveria ser valorizado em 40%, ao passo que o real estaria 16% acima do valor necessário para estimular exportações.
Esses números devem ter mudado algo no último mês em que o real perdeu valor ante o dólar, mas não alteram o fato de que a política cambial chinesa é um problema para o Brasil.
Os chineses, como é de seu estilo, ouvem as queixas em silêncio, fazem vagas promessas de corrigir os problemas, mas não deixaram de lembrar a Dilma que o Brasil leva vantagem no comércio, com um saldo, em 2010, de US$ 5,2 bilhões em um total de US$ 56,4 bilhões.
Em outras palavras, a China não é o parceiro dos sonhos, mas é indispensável.

Negocios de la China

Por: | 28 de noviembre de 2011

 

El bikini, casi tanto como el fútbol, es un producto típico de Brasil en cualquier playa del mundo. Pero hasta él fue afectado por la omnipresencia de China, que hace todo más barato.
Este detalle ayuda a entender la mirada poco pasional que los brasileños dedican hoy a China aunque su excesivo apetito, especialmente por las materias primas, fue esencial para el despegue de la economía brasileña a principios del gobierno de Luiz Inácio Lula da Silva, en 2003.
En un momento en el que el mercado interno brasileño no tenía la actual vitalidad, exportar a China era vital. Sin embargo, ahora hay una cierta decepción, de la que habla un reportaje del periódico Folha de S. Paulo, publicado el domingo.
El texto demuestra que China invierte en Brasil solo la mitad de lo que anuncia. Una investigación del periódico prueba que el 25% de los proyectos de inversión chinos anunciados en 2009 y 2010 no se realizaron y el 29% son inversiones brasileñas o de empresarios de otras nacionalidades.
Quizás el caso más emblemático sea el de la empresa tawianesa de productos electrónicos Foxconn, que anunció inversiones por 12 billones de dólares, pero recientemente dijo que contribuirá solamente con la tecnología. La presidenta Dilma Rousseff anunció la inversión de Foxconn personalmente durante su visita a China en abril. Y ganó la portada de los principales periódicos brasileños.
El ministro de Ciencia y Tecnología, Aloizio Mercadante, se presentó al día siguiente del anuncio a una rueda de prensa con su iPad y leyó  íntegra la nota de prensa de la empresa, como si fuese un relaciones públicas y no un ministro. La ridícula escena en aquel momento es todavía más patética ahora, cuando se sabe que la inversión no tiene ni remotamente el valor que la presidenta anunció.
Pero la frustración brasileña empezó antes de la investigación hecha por Folha. Dilma llevó a China un listado de quejas, que empezaba con la calidad del comercio bilateral. Desde 2009, China es el principal aliado comercial de Brasil. El 90% de las exportaciones brasileñas están concentradas en cuatro productos: hierro, soja, petróleo y celulosa, mientras casi toda la importación se compone de bienes manufacturados de alto valor agregado.
Los productores brasileños se quejan de que China exporta zapatos, una producción tradicional de Brasil, usando el trabajo de otros países (Malasia y Vietnam). La calidad de los calzados brasileños dominó el mercado hasta 2002, pero entre 2004 y 2009, la exportación se redujo a la mitad.
Sumando todo esto a la competitividad de los productos chinos, en el mercado interno o en terceros, provocó la pérdida entre 70 y 300 mil empleos en la industria, de acuerdo con distintos cálculos empresariales. Y está también la cuestión del cambio, de la que se queja no solo EE UU. El cambio chino está muy devaluado y, combinado con la apreciación del real brasileño, da una ventaja indebida a la producción de China.
Durante la visita de Dilma al país asiático, un estudio del Instituto Peterson de Economía Internacional decía que el yuan chino debería ser apreciado en un 40% mientras que el real estaba un 16% por encima del valor necesario para estimular las exportaciones.
Estos números pueden haber cambiado el último mes en el que real sufrió una pérdida de valor frente al dólar, pero no cambia el hecho de que la política de cambio chino es un problema para Brasil.
Los chinos, como es de su estilo, escuchan las quejas en silencio y prometen vagamente que corregirán los problemas. Pero recordaron a Dilma que Brasil tiene ventaja en el comercio, con un saldo de 5,2 billones de dólares de un total de 56,4 billones, en 2010.
En otras palabras, China no es el aliado ideal, pero es indispensable.

 

Traducción: Beatriz Borges

A verdade, tão fugidia

Por: | 24 de noviembre de 2011

 

Vinte e seis anos se passaram desde que o Brasil voltou a ser uma democracia. Vive, aliás, o mais longo período de plena vigência das liberdades públicas de sua história. Foi governado nos 17 anos mais recentes - a maior parte, portanto, desses 26 anos de reencontro democrático - por vítimas da repressão do período 1964/1985.  

Primeiro, Fernando Henrique Cardoso, que foi afastado da Universidade de São Paulo e preferiu, por prudência, asilar-se brevemente no Chile (antes do golpe do general Pinochet). Depois, Luiz Inácio Lula da Silva, que teve o sindicato que dirigia (o dos metalúrgicos de São Bernardo) colocado sob intervenção e ficou alguns dias preso.

Por fim, Dilma Rousseff, militante da luta armada que, por isso, foi presa e torturada.

Esse breve retrospecto histórico torna ainda mais chocante o fato de que só agora - mais exatamente no dia 18 de novembro- o Estado brasileiro tenha tomado a decisão de criar uma Comissão da Verdade e da Memória, para esclarecer o que aconteceu nos 21 anos de ditadura militar (vai investigar também ditadura anterior, mas o alvo óbvio é a mais recente).  

É claro que a iniciativa é elogiável. Vale para ela o lema dos que fizeram a primeira tentativa de libertar o Brasil do jugo português. Era "Liberdade ainda que Tardia". A verdade, ainda que tardia, é sempre bem-vinda.

O problema é saber se se vai de fato conseguir chegar ao menos perto dela. A resistência do establishment continua sendo tão forte que Vera Paiva, filha de um "desaparecido" chamado Rubens Paiva, deputado nacionalista, cassado pelo regime militar, não pôde fazer o discurso previsto na cerimônia em que a presidente Dilma assinou o ato de criação da Comissão.


O deputado Rubens Paiva, "desaparecido" 

Rubens Paiva é um dos casos mais emblemáticos da repressão: era um opositor puramente político, não um militante da luta armada. Já é uma violência o fato de ter sido privado de seu mandato. Violência que chega à demência quando se sabe que foi sequestrado, "preso em casa quando voltava do vôlei da praia, feliz em almoçar com a família no feriado. Dirigiu seu carro até o quartel, cujo recibo de entrega é a única prova de que foi preso", como relata a filha Vera, em artigo publicado na quinta-feira, 24, pela "Folha de S. Paulo".

Quarenta anos depois, não se sabe quem o prendeu, quem o manteve preso, quem o torturou, quem o matou.  

A crueldade da situação é assim descrita pela filha: "Descobrimos que a data em que cada um [da famlíia e dos amigos] decidiu que Rubens Paiva tinha morrido variava muito, meses e anos diferentes: aceitar que ele tinha sido assassinado seria matá-lo mais uma vez".  

 É importante notar que, ainda que se chegue à verdade, os responsáveis pelos crimes cometidos pela repressão não serão punidos. Estão protegidos por uma lei de anistia promulgada ainda no regime 

militar e tida como intocável pelos sucessores, mesmo aqueles que foram vítimas.

É razoável supor que ao menos parte da explicação para o atraso na busca da verdade e para a inviabilidade legal de punir violadores dos direitos humanos se deva às características da transição brasileira: foi feita pelo próprio regime quando suas figuras menos obscurantistas se deram conta de que a ditadura se esgotara.  

Há alguma semelhança, guardadas as imensas distâncias entre as histórias dos dois países, com a transição na Espanha. É só lembrar o que sucedeu ao juíz Baltasar Garzón quando tentou investigar Francisco Franco Bahamonde.

O principal argumento usado para preservar a impunidade dos torturadores é o de que a anistia cobriu os dois lados, o dos repressores e o dos reprimidos, que também cometeram crimes. É um argumento falacioso: todos os que pegaram em armas para se opor ao regime foram punidos. Alguns na forma da lei. Outros, à margem dela. Outros ainda por leis de exceção ditadas pelo regime (como o banimento, por exemplo). Mesmo muitos que não pegaram em armas, como Rubens Paiva, foram igualmente punidos, quando não mortos.  

Os repressores escaparam impunes, ainda que um ou outro agora - e só agora - esteja enfrentando processos judiciais.  

Mesmo com todas essas ressalvas, as vítimas saudaram a Comissão da Verdade, como o faz o jornalista e escritor Alipio Freire, em seu blog, no qual considera que a iniciativa é "uma vitória histórica".   

   

A presidente quer que o resultado da Comissão seja apresentado até o final de seu mandato, em dezembro de 2014. Só então se saberá quanto da verdade surgiu de fato sobre um período negro da história brasileira. 

 

 

 

 
 

La verdad, tan huidiza

Por: | 24 de noviembre de 2011

Pasaron 26 años desde que Brasil ha vuelto a ser una democracia. El país vive el período más largo de plena libertad pública de su historia. En la mayor parte de estos 26 años de reencuentro democrático, los últimos 17, fue gobernado por las víctimas de la represión del período 1964/1985.

Primero, Fernando Henrique Cardoso, apartado de la Universidad de São Paulo y exiliado por un corto periodo en Chile (antes del golpe del general Pinochet). Luego, Luiz Inácio Lula da Silva, que fue detenido por algunos días mientras era director del sindicato de metalúrgicos de São Bernardo do Campo, intervenido por los militares. Por fin, Dilma Rousseff, que fue presa y torturada por ser militante de la lucha armada.

Esta breve retrospectiva histórica hace más chocante que solamente ahora, el pasado 18 de noviembre, el Gobierno brasileño haya creado una Comisión de la Verdad y Memoria, para aclarar qué pasó durante los 21 años de dictadura militar (investigarán también la dictadura anterior, pero el primer objetivo es la más reciente).

La iniciativa es elogiable, por supuesto. Le vale el lema de los que intentaron por primera vez liberar Brasil de Portugal,"Libertad, aunque tardía". La verdad, aunque tardía, es siempre bienvenida. El problema es saber si de hecho esta iniciativa logrará acercarse a ella.

La resistencia de la élite política sigue fuerte. Tanto que Vera Paiva, hija del  "desaparecido" diputado nacionalista Rubens Paiva destituído por el régimen militar, no pudo hacer un discurso previsto para la ceremonia en la que la presidenta Dilma firmó la creación de la Comisión. (foto: diputado Rubens Paiva, "desaparecido")

Rubens Paiva es uno de los casos más emblemáticos de la represión: era un opositor puramente político, no un militante de la lucha armada. La violencia empezó cuando le privaron de su mandato y llegó a un estado demencial cuando le secuestraron. Su hija lo relató en un artículo publicado en el periódico Folha de S. Paulo, donde cuenta que su padre fue "detenido en casa cuando volvía de jugar voley playa, contento en comer con su familia en un día festivo. Condujo su coche hasta el cuartel, donde recibió una nota de entrega, que es la única prueba de que fue detenido".

Cuarenta años después no se sabe quien le detuvo, quien le mantuvo preso, quien le torturó ni quien le mató.

Así describió su hija la crueldad de la situación: "Descubrimos que las fechas que la familia y los amigos dieron para la muerte de Rubens Paiva variaban mucho, meses y años distintos. Aceptar que él hubiese sido asesinado sería matarlo más de una vez".

Aunque la verdad surja, es importante apuntar que los responsables por los crímenes de la represión no serán penalizados. Están protegidos por una ley de amnistía, promulgada durante el régimen militar y considerada intocable por los sucesores, incluyendo aquellos que fueron víctimas.

La transición, creada por el propio régimen cuando sus figuras menos obscuras se dieron cuenta de que la dictadura se agotaba, tiene características que justifican el retraso en la búsqueda de la verdad y la imposibilidad legal de penalizar a los violadores de los derechos humanos.

Hay cierta similitud con la transición en España, siempre que se considere la inmensa distancia entre las historias de los dos países. Basta recordar lo que pasó al juez Baltasar Garzón cuando intentó investigar a Francisco Franco Bahamonde.

La amnistía protegió opresores y oprimidos, que también cometieron crímenes, y este es el principal argumento para preservar la impunidad de los torturadores. Es un argumento falaz: todos los que recogieron a armas para oponerse al régimen fueron penalizados. Algunos a través de la ley. Otros, a su margen. Otros, por leyes de excepción dictadas por el régimen (como el destierro, por ejemplo). Aunque muchos de los que no cogieron las armas, como Rubens Paiva, fueron igualmente penalizados o muertos.

Los opresores escaparon impunes, aunque algunos, solamente ahora, estén enfrentándose procesos judiciales.

Pese a todas estas excepciones, las víctimas dieron la bienvenida a la Comisión de la Verdad, como lo hizo el periodista y escritor Alipio Freire en su blog, en el que considera la iniciativa "una victoria histórica".

La presidenta Dilma Rousseff quiere que la Comisión presente los resultados hasta el final de su legislatura, en diciembre de 2014. Solamente en esta fecha se sabrá cuánto de la verdad surgió sobre un periodo negro de la historia brasileña.

Traducción: Beatriz Borges

O cemitério dos elefantes

Por: | 21 de noviembre de 2011

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Coincidiu, no domingo, de ver duas partidas de futebol de campeonatos diferentes: Sevilla 1 x Athletic de Bilbao 2, do Espanhol, e Corinthians 2 x Atlético Mineiro 1, do Brasileiro.

Enorme paradoxo: embora na disputa brasileira estivesse em campo o líder do torneio (Corinthians) e uma equipe de imensa tradição, a primeira a ganhar o título nacional, em 1971, o jogo do Espanhol foi muitíssimo melhor. Mas o que faltou de futebol no Brasil sobrou em emoção, ingrediente algo escasso em Sevilha, ainda mais pela apatia do time local.    

É verdade que jamais falta emoção quando joga o Corinthians, o segundo time de maior torcida no Brasil, depois do Flamengo. Se José Mourinho fosse treinador do Corinthians jamais se poderia queixar do comportamento da torcida, ao contrário do que fez dias atrás com a turma do Real Madrid.

A torcida corintiana é chamada de Fiel - e justifica o nome a cada jogo.   

Mas esse fanatismo e essa fidelidade transformaram-se em loucura por um desses eventos que só o futebol parece capaz de proporcionar: o gol da vitória foi marcado por Adriano, mais de 100 quilos, sabidamente dependente do álcool, um ano e cinco meses sem marcar gols, depois de ter sido o centro-avante titular da seleção brasileira.   

Sua carreira entrou em vertiginoso declínio depois da Copa do Mundo na Alemanha, em 2006, primeiro na Internazionale de Milão, depois na Roma (oito jogos, nenhum gol).

O Corinthians o contratou em março, por sugestão de Ronaldo "Fenômeno", outro elefante que veio morrer, futebolisticamente, no Brasil. Mas foi só em outubro que pôde estrear, assim mesmo jogando apenas alguns minutos em quatro partidas, sem brilho e sem gols.   

Quando se preparava para entrar em campo no domingo, parecia mais um lutador de sumô do que um jogador de futebol. Mas fez o gol da vitória aos 44 minutos do segundo tempo, o que levou ao desabafo de um dos melhores colunistas esportivos do Brasil, Juca Kfouri, assumido torcedor corinthiano. 

A comparação entre partidas do Espanhol e do Brasil mostra que não é casual a prevalência da qualidade, no primeiro, e da emoção no segundo.

O Brasil tornou-se, há muitíssimos anos, um exportador de "pé-de-obra", como os jornalistas esportivos se referem à mão-de-obra que usa os pés para ganhar a vida. Os melhores jogadores brasileiros atuam na Europa, o que privou o Campeonato Brasileiro de qualidade, apesar de o Brasil ter sido até faz pouco dono do melhor futebol do mundo.

Não o digo por patriotismo, até porque consta que o patriotismo (ou o nacionalismo) é o último refúgio dos canalhas. Digo porque as estatísticas ordenam: o Brasil é único país com cinco Copas do Mundo no seu acervo, além de ser o único a ter disputado as fases finais de todos os 19 Mundiais já realizados (a Espanha, atual campeã, só esteve em 13).    

Já a Liga espanhola reúne hoje os melhores jogadores do mundo, espanhois ou não, o que lhe dá a qualidade que falta ao torneio no Brasil.

Em contrapartida, o Campeonato Brasileiro, ao menos o deste ano, está sendo mais emocionante que o espanhol, pela simples razão de que não é um torneio para dois. Sete equipes chegaram às últimas rodadas com chances de ganhar, ao passo que, na Espanha, antes mesmo de começar o campeonato, a disputa está limitada a Barcelona e Real Madrid.

Faltam duas rodadas para terminar o "Brasileirão" e três clubes podem vencê-lo. Na Espanha, se o Madrid ganhar o clássico do dia 10 com o Barça, faltará ainda todo o segundo turno mas o tíitulo estará virtualmente definido (como "culé" fanático, me doi dizê-lo mas não posso brigar com os fatos). 

Outra diferença de papeis: a Espanha (a Europa, de modo geral) importa jogadores brasileiros e envia de volta atletas em fim de carreira, que os clubes europeus já não querem mais. Casos dos já citados Adriano e Ronaldo, mas caso também de Liedson, que jogou até na seleção portuguesa, antes de vir para o Corinthians. Marcou, aliás, o primeiro dos dois gols contra o Atlético Mineiro.

Outro retornado é Ronaldinho Gaúcho, ex-Barça, ex-Milan, hoje no Flamengo.

Nenhum deles conseguiu chegar perto da qualidade que exibiram antes de emigrarem para a Europa ou durante a estada em clubes europeus.

Não parece, portanto, um despropósito chamar o futebol brasileiro de cemitério dos elefantes.

O que pode mudar essa característica é o fato de a mais recente grande revelação do futebol brasileiro, o atacante Neymar, 19 anos, do Santos e seleção brasileira, ter decidido ficar no país. Renovou contrato com seu clube até 2014, depois de uma novela em que foi dado como contratado ora pelo Real Madrid, ora pelo Barcelona, ora pelo Chelsea.  

Talvez reflexo da diferente situação econômica do Brasil (bem) e da Europa (muito mal), Neymar ficou por um salário comparável ao das grandes estrelas europeias: ganhará R$ 1,5 milhão, o equivalente a € 625 mil por mês (repito: por mês).  

É mais, por exemplo, do que recebe Iniesta, autor do gol do primeiro título mundial da Espanha, multi-campeão pela Espanha e pelo Barça, um dos três melhores jogadores do mundo, na última votação global. Mais também do que ganha Xavi, espinha dorsal da Espanha e do Barça.

Se você quer minha opinião, digo que o futebol brasileiro não tem estrutura e força econômica suficiente para sustentar jogadores com a qualidade (e o salário) de Neymar, a não ser por um tempo relativamente curto. De todo modo, permanência do jovem astro será um bom teste para saber se o que já foi o melhor futebol do mundo poderá ser visto também nos torneios locais ou se continuará restrito à Europa.   

El cementerio de los elefantes

Por: | 21 de noviembre de 2011

El domingo coincidieron dos partidos de fútbol de distintos campeonatos: el español, Sevilla 1 x Athletic de Bilbao 2,  y el brasileño, Corinthians 2 x Atlético Mineiro 1.

Una enorme paradoja: el partido español fue mucho mejor pese a que, en la disputa brasileña, estuviesen en el campo Corinthians, líder del campeonato y un equipo tradicional que fue el primero en ganar el título nacional en 1971. En Brasil lo que faltó de fútbol sobró de emoción, ingrediente escaso en Sevilla, aún más por la apatía del equipo local.

Es verdad que jamás falta emoción cuando juega Corinthians, el segundo equipo en hinchas en Brasil después del Flamengo. Si José Mourinho fuese entrenador del Corinthians jamás podría quejarse del comportamiento de la hinchada, como lo hizo días atrás con la del Real Madrid.

La hinchada corintiana se llama Fiel, y justifica su nombre en cada partido.

El fanatismo y la fidelidad se transforman en locura cuando sucede algo que solo puede ocurrir en el fútbol: el gol de la victoria lo marcó Adriano, un jugador de más de 100 kilos, alcohólico y que, después de jugar con la selección brasileña como delantero centro, llevaba un año y cinco meses sin marcar.

Su carrera declinó vertiginosamente: primero en el Inter de Milan, luego en la Roma (ocho partidos, cero goles) después en el Mundial en Alemania, en 2006.

Corinthians lo contrató en marzo, por sugerencia de Ronaldo, otro elefante que vino a morir futbolísticamente en Brasil. Pero solamente en octubre debutó, asimismo por algunos minutos en cuatro partidos, sin brillo ni goles.

Cuando se preparaba para entrar en el campo el pasado domingo parecía más a un luchador de sumo que un jugador de fútbol. Pero hizo el gol de la victoria a los 44 minutos de la segunda parte, lo que llevó a uno de los mejores columnistas deportivos de Brasil y corinthiano asumido, Juca Kfouri, a desahogarse.

La comparación entre los partidos del campeonato español y los del brasileño demuestra que la calidad superior en el primero y la emoción en el segundo no es casual.

Brasil se convirtió hace muchos años en un exportador de “pie de obra”, como los periodistas deportivos se refieren a la mano de obra que usa los pies para ganarse la vida. Los mejores jugadores brasileños juegan en Europa, lo que resta calidad al Campeonato Brasileño, pese a que Brasil haya sido el dueño del mejor fútbol del mundo hasta hace poco.

No lo digo por patriotismo, incluso porque el patriotismo (o nacionalismo) es el último refugio de los canallas. Lo digo porque las estadísticas imponen: Brasil es el único país con cinco Copas del Mundo en su acervo y el único que disputó todas las fases finales de todos los mundiales (España, actual campeona, solo ha estado en 13).

La Liga española reúne a los mejores jugadores del mundo, españoles o no, lo que le da la calidad que le falta al campeonato en Brasil.

El campeonato brasileño, al menos el de este año, es más emocionante que el español por la simple razón de que no es un campeonato para dos. Siete equipos llegan a las últimas rondas con posibilidades de ganar, mientras que en España, antes de que empiece el campeonato, la disputa se limita al Barcelona y al Real Madrid.

Faltan dos fases para terminar el “Brasileirão” y tres clubes pueden vencerlo. En España, si Madrid gana el clásico contra el Barça el próximo día 10, faltará el segundo partido, pero el título estará virtualmente definido (como “culé” fanático me duele decirlo, pero no puedo pelear con los hechos).

Otra diferencia: España (y Europa en general) importa los jugadores brasileños y devuelve a los futbolistas al final de carrera, cuando los clubes europeos ya no los quieren más. Es el caso de los ya citados, Adriano y Ronaldo, pero también de Liedson, que jugó en la selección portuguesa antes de venir al Corinthians. Él marcó el primer de los dos goles contra el Atlético Mineiro.

Ronaldinho, exBarça, exMilan y hoy en el Flamengo, es otro que ha vuelto.

Durante su paso por los clubes europeos, ninguno de ellos consiguió acercarse a la calidad que exhibieron antes de emigrar.

No parece, por tanto, un despropósito llamar al fútbol brasileño de cementerio de elefantes.

Esta realidad puede cambiarse con ejemplos como el del jugador de 19 años del Santos, Neymar, que decidió quedarse en el país. Renovó con su club hasta 2014, después de una novela en la que supuestamente había sido contratado por el Real Madrid, Barcelona o Chelsea.

Neymar se quedó, quizás reflejo de la distinta situación económica de Brasil (bien) y de Europa (muy mal), por un sueldo comparable al de las grandes estrellas europeas: ganará R$1,5 millón, 625.000 euros al mes (repito: al mes).

Es más de lo que gana Iniesta, autor del gol del primer título mundial de España y multicampeón con España y con el Barça, uno de los tres mejores jugadores del mundo en la última votación global.

Si quieres mi opinión, creo que el fútbol brasileño no tiene estructura o fuerza económica suficientes para sostener jugadores con la calidad y el sueldo de Neymar, a no ser por un tiempo relativamente corto. De todos modos, la permanencia del joven astro será un buen test para saber si el que un día fue el mejor fútbol del mundo podrá verse en los campeonatos locales o seguirá siendo propiedad limitada de Europa.

Traducción: Beatriz Borges

A velha Belíndia vive

Por: | 17 de noviembre de 2011

O economista Edmar Bacha, um dos integrantes da equipe que lançou o Plano Real, que conseguiu 
 por fim controlar a inflação no Brasil, cunhou faz já bastante tempo uma expressão para designar o 
país: seria uma Belíndia, uma pequena Bélgica rica cercada por uma imensa Índia pobre, miserável até em determinados pontos.
A expressão caiu em desuso nos últimos anos, caracterizados por uma forte propaganda dos avanços econômicos e sociais do Brasil. De fato houve avanços a partir do controle da inflação que era uma fábrica de pobreza e desigualdade incontrolável.
Mas os resultados do Censo 2010 que acabam de ser divulgados mostram que a Belíndia continua muito viva, nos mais diferentes aspectos. 
 Fiquemos no que é mais chocante, a imensa desigualdade entre ricos e pobres. Os 10% mais ricos recebem 39 vezes mais do que os 10% mais pobres (R$ 5.345 x R$ 137). Detalhe cruel: esses R$ 137 são a renda média mensal dos mais pobres. Equivalem a € 57,50. Ou, posto de outra forma, os espanhois que vivem se queixando de que são "mileuristas" e, por isso, se sentem miseráveis, talvez se consolassem ao saber que, mesmo sendo baixa, sua renda é 17 vezes superior ao do brasileiro pobre.
O que significa uma coisa que a propaganda oculta: o Brasil emergente tem uma vasta massa de gente que continua submersa, tristemente submersa. 
Uma outra pesquisa, esta feita pelo Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas, quantificou essa massa: há 26,2 milhões de pessoas vivendo com até R$ 134 de renda média (13% dos 190 milhões de brasileiros), aos quais se somam 80,8 milhões que o IPEA considera pobres, com renda média mensal entre R$ 134 e R$ 465. 
Total dos que não emergiram: 107 milhões, mais da metade da população, a Índia brasileira.
A desigualdade se reflete em praticamente todos os aspectos da vida. Educação, por exemplo: a taxa de analfabetismo, embora em queda, continua insuportavelmente alta (9,6%) para um país que gosta de se considerar a sexta potência mundial. Mas é obscena na faixa de pessoas de 10 anos ou mais de idade sem rendimento ou com rendimento mensal domiciliar per capita de até 1/4 do salário mínimo:
chega a 17,5%, quando na "Bélgica" brasileira é de apenas 0,3% (na classe social que vive com 5 ou 
 mais salários mínimos).
 Outro exemplo: saneamento básico. No Sudeste, a região mais rica do país, 90,3% dos domicílios estão atendidos por abastecimento de água, esgoto e coleta de lixo. Na região Norte, a porcentagem cai para apenas 54,5%.
Essa "Belíndia" tropical não é mais um país de maioria branca, revelou também o Censo. Pela primeira vez, o número dos que se declaram "brancos" caiu abaixo de 50% (exatamente para 47,7%, uma queda de seis pontos percentuais em relação ao Censo 2000). 
É claro que o Brasil evoluiu nesse intervalo, mas com lentidão irritante, especialmente para a minha geração que já não tem muito tempo para esperar que, enfim, a potência do futuro chegue realmente ao futuro.  

La vieja Belindia vive

Por: | 17 de noviembre de 2011

Uno de los integrantes del equipo que creó el Plan Real (que logró finalmente controlar la inflación en Brasil), el economista Edmar Bacha, acuñó hace tiempo una expresión para designar el país: Belindia, una pequeña Bélgica rica rodeada por una inmensa India pobre, miserable en determinados puntos.

Durante los últimos años, caracterizados por una fuerte propaganda de los avances económicos y sociales de Brasil, la expresión cayó en desuso. La inflación era una fábrica de pobreza e incontrolable desigualdad y, de hecho, hubo avances desde que fue controlada.

De acuerdo con el recién divulgado Censo 2010, la Belindia sigue viva en muchos aspectos.

Lo que más choca es la inmensa desigualdad entre ricos y pobres.

El 10% de los más ricos recibe 39 veces más que el 10% de los más pobres (R$ 5.345 x R$ 137,  2222€ x 57€). Detalle cruel: estos 57€ son la renta media mensual de los más pobres. O, dicho de otra manera, los españoles quizás se consolarían si supiesen que su renta "mileurista", de la que se quejan por sentirse miserables, es 17 veces superior al brasileño pobre.

Lo que significa que la propaganda esconde que el Brasil emergente tiene una gran parte de su población sumergida, tristemente sumergida.

El Instituto de Investigaciones Económicas Aplicadas (IPEA) cuantificó esta población: hay 26,2 millones de personas que viven con una renta media de 55€ (el 13% de los 190 millones de brasileños) a los que se suman 80,3 millones que el IPEA considera pobres, con una renta mensual de 55€ a 193€.

En la India brasileña 107 millones no ascendieron, más de la mitad de la población.

La desigualdad se refleja en prácticamente todos los aspectos de la vida. Educación, por ejemplo: aunque se esté reduciendo, la tasa de analfabetismo sigue insoportablemente alta (9,6%) para un país al que le gusta considerarse la sexta potencia mundial.

El 17,5% de las personas de más de 10 años de edad no tiene renta o tiene una renta mensual domiciliar per capita de 1/4 del salario mínimo (52€). Mientras esta realidad solo afecta al 0,3% de la Bélgica brasileña, clase social que vive con 5 salarios mínimos (1058€) o más.

El saneamiento es otro ejemplo. En el Sudeste, la región más rica del país, el 90,3% de las viviendas tienen agua, alcantarillado y recogida de basura. En la región Norte solo el 54,5% de las viviendas tienen estos servicios.

El Censo también reveló que esta "Belindia" tropical ya no es más un país de mayoría blanca.

Por primera vez, el número de los que se declaran "blancos" cayó por debajo del 50% (exactamente 47,7%, seis puntos porcentuales menos respecto al Censo del 2000).

Brasil evolucionó en este intervalo, por supuesto, pero con una lentitud irritable, principalmente para mi generación que ya no tiene mucho tiempo para esperar que, por fin, la potencia del futuro realmente llegue al futuro.

Traducción: Beatriz Borges

El País

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