Clovis Rossi

Negócios da China

Por: | 28 de noviembre de 2011

Quase tanto quanto o futebol, biquíni é um produto com a cara do Brasil, em qualquer praia do mundo. Mas até ele foi afetado pela onipresença da China, que faz de tudo mais barato.
Esse detalhe ajuda a entender o olhar menos apaixonado que os brasileiros estão passando
a dedicar a China, por mais que o pantagruélico apetite chinês - especialmente por matérias primas - tenha sido essencial para a decolagem da economia brasileira no início do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, em 2003.
Exportar para a China era vital em um momento em que o mercado interno brasileiro ainda não tinha a vitalidade atual.

Agora, no entanto, vem um certo desapontamento, de que dá prova reportagem publicada domingo pelo jornal "Folha de S. Paulo".

Nela se demonstra que a China investe no Brasil só metade do que anuncia. Levantamento feito pelo jornal prova que, dos principais projetos de investimento chineses, anunciados em 2009 e 2010, 25% não saíram do papel e 29% são, na realidade, investimentos brasileiros ou de empresários de outras nacionalidade.
O caso talvez mais emblemático é o da empesa taiwanesa de eletrônicos Foxconn, que anunciou investimentos de US$ 12 bilhões anunciados, mas recentemente indicou que quer contribuir apenas com a tecnologia.

O investimento da Foxconn foi anunciado pessoalmente pela presidente Dilma Rousseff, durante sua visita à China, em abril, e ganhou as primeiras páginas de todos os principais jornais brasileiros à época.



Dilma brinda com Hu Jintao, durante visita à China, em abril

O ministro de Ciência e Tecnologia, Aloizio Mercadante, promoveu uma cena patética, no dia seguinte ao anúncio, ao se apresentar para uma entrevista coletiva armado de um IPad com um "press release" da empresa, que leu do começo ao fim, como se fosse relações públicas da companhia, em vez de ministro de Estado.
A cena, ridícula naquele momento, torna-se ainda mais patética agora que se verifica que o investimento não tem nem remotamente o porte que a presidente anunciou.
Mas a frustração brasileira vem de antes do levantamento feito pela "Folha". Dilma Rousseff levou à China uma lista de queixas que começavam pela qualidade do comércio bilateral. A China pasou a ser, desde 2009, o principal parceiro comercial do Brasil, mas cerca de 90% das exportações brasileira estão concentradas em apenas quatro produtos (minério de ferro, soja, petróleo e celulose), ao passo que quase toda a importação se compõe de bens manufaturados de alto valor agregado.

Os produtores brasileiros queixam-se ainda de que a China exporta calçados, tradicional produção brasileira, usando terceiros países (Malásia e Vietnã). Até 2002, calçados brasileiros dominavam o mercado no segmento de qualidade. Mas, entre 2004/2009, a exportação caiu pela metade.

Tudo somado, tem-se que a competição com os produtos chineses, no mercado interno ou em terceiros mercados, causou a perda de entre 70 mil e 300 mil empregos na indústria, conforme diferentes cálculos empresariais.
Há ainda a questão cambial. Não são apenas os Estados Unidos que se queixam do 

câmbio chinês, muito desvalorizado, que dá uma vantagem indevida à produção da China, ainda mais quando combinado com a valorização do real brasileiro. Na época da visita de Dilma à China, estudo do Instituto Peterson de Economia Internacional mostrava que o yuan chinês deveria ser valorizado em 40%, ao passo que o real estaria 16% acima do valor necessário para estimular exportações.
Esses números devem ter mudado algo no último mês em que o real perdeu valor ante o dólar, mas não alteram o fato de que a política cambial chinesa é um problema para o Brasil.
Os chineses, como é de seu estilo, ouvem as queixas em silêncio, fazem vagas promessas de corrigir os problemas, mas não deixaram de lembrar a Dilma que o Brasil leva vantagem no comércio, com um saldo, em 2010, de US$ 5,2 bilhões em um total de US$ 56,4 bilhões.
Em outras palavras, a China não é o parceiro dos sonhos, mas é indispensável.

Hay 3 Comentarios

muito grato, espero que o seu ser em uma conferência no futuro, raramente há muita consistência na internet

Gracias. muy interesante

Pois parece que todos sabemos dessas coisas, até mesmo o Governo, que sempre é o último.
Hoje näo mais se perdoa näo saber negociar, coisa que os ingleses já fazem à perfeiçäo desde o século 17.
Bastava copiar.
Alegar ignorância é insultar nossa inteligência pois até mesmo o bodegueiro de bairro conhece as regras do mercado.
Resta a hipótese da má fé ou a desídia em fazê-lo.

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Sobre el autor

Clovis Rossi. 48 años de periodismo, columnista del diario "Folha de S. Paulo" y del portal Folha.com, ya ejerció todas las funciones posibles en el periodismo, de reportero a editor-jefe, ganador de los premios Maria Moors Cabot, de la Universidad Columbia (NY) y de la Fundación Nuevo Periodismo Iberoamericano, dirigida por Gabriel García Márquez, los dos por el conjunto de la obra.

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