Clovis Rossi

Sobre el autor

Clovis Rossi. 48 años de periodismo, columnista del diario "Folha de S. Paulo" y del portal Folha.com, ya ejerció todas las funciones posibles en el periodismo, de reportero a editor-jefe, ganador de los premios Maria Moors Cabot, de la Universidad Columbia (NY) y de la Fundación Nuevo Periodismo Iberoamericano, dirigida por Gabriel García Márquez, los dos por el conjunto de la obra.

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Partidos fracos, democracia forte

Por: | 27 de febrero de 2012



Fernando Haddad



José Serra

Estranha química a que se está constituindo para a eleição deste ano para a maior cidade da América Latina, o principal polo econômico do país, o terceiro maior orçamento da República. Claro que estou falando de São Paulo.
Os dois principais candidatos, salvo novas surpresas, serão um veterano político, José Serra, que quer ser presidente da República, não prefeito; e um jovem especialista em Educação, Fernando Haddad, que, embora pertença ao PT (Partido dos Trabalhadores), talvez o de mais forte democracia interna, acabou sendo beneficiado por um "dedazo", como se diria no México do velho PRI (Partido Revolucionário Institucional), praticado pelo ídolo Luiz Inácio Lula da Silva.
Esse cenário é reflexo da debilidade do sistema partidário brasileiro. Sorte dos brasileiros que a democracia continua saudável, graças a uma sociedade civil pujante, embora avessa a mobilizações de massa, e a uma estrutura econômica igualmente pujante e diversificada, que torna pouco viáveis aventuras autoritárias.
A debilidade do sistema partidário começa pelo número excessivo de siglas: 29 estão legalizadas, 23 estão representadas na Câmara dos Deputados. Alguém aí acredita que possa haver, em qualquer país, 29 ou mesmo 23 propostas diferentes de organizar a vida econômica e social, que seria a principal tarefa dos partidos?
O número excessivo vem acompanhado de escassez programática e ideológica. Basta lembrar que o partido de criação mais recente, o PSD (Partido Social Democrata), foi inventado pelo atual prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, acompanhado da seguinte definição: não é de direita nem de esquerda nem de centro.
Coerente com essa definição (ou, mais exatamente, indefinição), Kassab é capaz de aliar-se com os dois partidos que são os adversários históricos na República, o PT e o PSDB (aliás, PSDB é também social-democrata, como o de Kassab). Ofereceu-se ao PT para fornecer o vice na chapa comandada por Haddad, mas recuou quando José Serra decidiu-se afinal pela candidatura, ao final de mais uma novela.
Afinal, Kassab foi inventado por Serra, como candidato a vice-prefeito na eleição de 2004, e contemplado com a Prefeitura, quando Serra a abandonou dois anos depois para disputar o governo do Estado, que acabou conquistando.
O PSDB aliás parece partido de um só candidato ou, no máximo, dois. Cada vez que há uma eleição para a Presidência da República, para o governo do Estado de São Paulo ou para a Prefeitura da capital, o candidato ou é Serra ou é Geraldo Alckmin, hoje governador.
Tanto PSDB como PT fogem de primárias, prévias ou qualquer sistema de disputa interna comum nos Estados Unidos e em alguns países europeus. O PSDB até marcou uma prévia, entre quatro candidatos, para o domingo, 4 de março. Mas bastou que Serra anunciasse sua disposição de concorrer de novo à Prefeitura para que dois deles abandonassem a disputa.






É compreensível: Serra lidera a pesquisa de intenção de voto, com 21%, enquanto os quatro outros nomes do partido nem chegam a 10% cada um.
Já o PT preferiu desprezar o favoritismo (e as prévias): quem liderava as pesquisas, no ano passado, era a senadora Marta Suplicy, que também havia sido prefeita. Mas aí veio Lula, praticou o "dedazo" e o candidato virou um virgem em disputas eleitorais, o ministro da Educação de Lula e de Dilma Rousseff, Fernando Haddad (4% na pesquisa mais recente do instituto Datafolha, sétimo colocado entre 10 potenciais candidatos).
Tudo leva a crer que Lula acredita poder reeditar com Haddad o que fez com Dilma Rousseff, também virgem em disputas eleitorais mas que, não obstante, elegeu-se presidente com base no prestígio de seu padrinho.
Tudo somado, tem-se que o cenário na principal eleição brasileira de 2012 gira, claramente, em torno de personalidades (Serra, Lula, Haddad, eventualmente Dilma) e não de partidos.

Partidos débiles, democracia fuerte

Por: | 27 de febrero de 2012

Las elecciones de este año para la alcaldía de São Paulo tienen una química rara. Los dos principales candidatos son José Serra, un político veterano que no quiere ser alcalde sino presidente de la República; y Fernando Haddad, un joven especialista en educación. Haddad es el candidato del Partido de los Trabajadores, que quizás sea el partido que tiene el sistema democrático interno más fuerte. Pese a esto, él fue beneficiado por una indicación, o dedazo, como se dice en el México del viejo Partido Revolucionario Institucional y como lo hace el ídolo Luiz Inácio Lula da Silva.

Este escenario refleja la debilidad del sistema de partidos brasileño. Los brasileños tienen suerte que la democracia sigue saludable, que la sociedad civil prospera aunque sea reacia a movilizaciones en masa, y que la estructura económica igualmente prospera y se diversifica, lo que inviabiliza las aventuras autoritarias.

La debilidad del sistema de partidos empieza con el número excesivo de siglas: 29 están legalizadas y 23 están representadas en la Cámara de los Diputados. ¿Alguien cree que en cualquier país puedan existir 23 o 29 propuestas distintas de organizar la vida económica y social? Crear estas propuestas es la principal tarea de los partidos.

El número excesivo va acompañado de la escasez de programas y de ideología. Nos lo recuerda el partido creado más recientemente, el Partido Social Demócrata. Gilberto Kassab es el actual alcalde de São Paulo y fundador del partido, que se define así: no es de derechas, ni de izquierdas y ni de centro.

Kassab, coherente con esta definición, o mejor dicho, indefinición, es capaz de aliarse a dos partidos históricamente adversarios, el Partido de los Trabajadores y el Partido Social Demócrata Brasileño (PT y PSDB). El PSDB es Demócrata, como el de Kassab. Al PT se le ofreció ocupar el puesto de vice, en el grupo comandado por Haddad. Pero el Partido de los Trabajadores finalmente no lo aceptó, ya que José Serra decidió finalmente presentarse, al cierre de una novela más. Después de todo, Kassab fue vicealcalde en las elecciones de 2004, una invención de Serra. Dos años después de haber asumido la alcaldía, Serra la abandonó para concurrir al Gobierno del Estado de São Paulo, puesto que logró ocupar.
El PSDB parece un partido de un solo candidato o, como mucho, de dos. Cada vez que hay una elección para la Presidencia de la República, para el Gobierno del Estado de São Paulo o para la alcaldía de São Paulo, el candidato es Serra o Geraldo Alckmin, hoy gobernador.

Tanto el PSDB como el PT huyen de las primarias, previas o cualquier sistema de disputa interna, común en los Estados Unidos y en algunos países europeos. El PSDB marcó las primarias entre cuatro candidatos para el domingo, 4 de marzo. Pero dos de ellos abandonaron la disputa después que Serra anunció su disponibilidad para concurrir nuevamente a la alcaldía.

Traducción: Beatriz Borges

Uma imbecilidade de R$ 22 milhões

Por: | 23 de febrero de 2012







Esse novo mundo de redes sociais e marketing cada vez mais disseminado não para de me surpreender. A mais recente surpresa apareceu no carnaval de São Paulo ou, mais precisamente, na apuração do resultado dos desfiles, na terça-feira.
Como todo o mundo já sabe e já comentou, menos em "El País", talvez porque o carnaval paulista não tem o charme - nem o marketing - do carnaval do Rio, houve uma enorme confusão, após a invasão da área de apuração por Tiago Faria, militante, digamos assim, de uma das escolas, a Império da Casa Verde, que acabaria rebaixada.
Até aí, nada de muito surpreendente. Raro é não haver confusão em apurações carnavalescas. Quase todos os diretores das escolas vestem-se, nesse momento, de José Mourinho e acham que só perdem porque os juízes roubam.
A novidade no caso de São Paulo se deveu ao olho aguçado de um jornalista, Cley Scholz ("Estado de S. Paulo"), que logo notou que Tiago vestia uma camiseta com propaganda das lentes de contato ("lentillas" em espanhol) Transitions da marca Varilux.
Scholz tascou logo no Facebook a sua observação, acompanhada de texto em que lembrava que a empresa investira R$ 22 milhões em campanha de marketing no Brasil, seu terceiro maior mercado.
A delinquência de Tiago, portanto, de certa forma jogava R$ 22 milhões na lata do lixo (€ 9,6 milhões). Não que todos os que presenciaram a cena, ao vivo ou depois nas incontáveis repetições de todos os canais de TV, passarão a acreditar que quem usa Varilux Transitions tende a ter acessos de fúria e imbecilidade. Mas a essência da propaganda tem sido justamente a de tentar passar a ideia de quem consome a cerveja xis ou y leva para a cama todas as mais deliciosas mulheres do mundo, por exemplo.
Logo, associar a marca a um ato imbecil acaba sendo uma contrapropaganda, ainda mais agora na era das redes sociais.
Em outros tempos, a camiseta de Tiago passaria sem ser notada ou seria notada apenas no dia seguinte, nas fotos dos jornais, que continuam sendo, apesar de tudo, mais perenes do que o micro-segundo de uma imagem de TV. Além disso, é pouco provável que, ao ver a foto, alguém se dispusesse a lembrar a campanha de marketing da empresa vítima do caso, ao contrário do que fez Cley Scholz, que via a apuração já com o dedo no gatilho do computador e a memória fresquinha, fresquinha, atributo essencial para o bom jornalismo, hoje como ontem e amanhã, espero.
Esse episódio chama a atenção para o descuido das empresas brasileiras para com as redes sociais, revelada em pesquisa que acaba de ser divulgada pela revista "América Economia".

É muito pouco quando se sabe que é nas redes sociais que mais se fala mal de muitas marcas, principalmente prestadoras de serviços. Antigamente, quando havia um acidente com avião, a empresa proprietária costumava mandar borrar a logomarca para que não aparecesse nas imagens associada a desastre. Hoje, é inapagável, como o demonstra o episódio carnaval/Transitions/Varilux.

Una imbecilidad de 22 millones de reais

Por: | 23 de febrero de 2012

Este nuevo mundo del marketing y de las redes sociales, cada vez más diseminado, no para de sorprenderme. La más reciente sorpresa apareció el martes en los carnavales de São Paulo. Más precisamente, durante la apuración de la votación de los desfiles de las escuelas de samba.

Hubo una enorme confusión después que Tiago Faria, un militante de una escuela de samba de São Paulo llamada Imperio de la Casa Verde, invadió la zona de apuración. Su escuela terminó descendiendo. Esto todo el mundo lo sabe y ya lo comentó, menos EL PAÍS, quizás porque los carnavales de São Paulo no tienen el encanto ni el marketing de los carnavales de Rio.

Hasta ahora, nada muy sorprendente. Lo raro es que no haya confusión durante las apuraciones de carnavales. En estos momentos, casi todos los directores de las escuelas se visten de José Mourinho y creen que solo pierden porque los árbitros roban.

La novedad en el caso de São Paulo es que un periodista del periódico O Estado de S. Paulo, Cley Scholz, notó que Tiago llevaba una camiseta con la propaganda de las lentillas Trasitions, de la marca Varilux. Scholz publicó su observación en Facebook, acompañada de un texto en el que recordaba que la empresa había invertido 22 millones de reais (9,6 millones de euros) en su campaña de marketing en Brasil, su tercer mercado.

La delincuencia de Tiago, por lo tanto, tiraba a la basura estos 22 millones de reais. Por supuesto que los que estaban presentes, o los que vieron la escena en las repeticiones de todos los canales, no creerán que usar Varilux Transitions provoque accesos de furia e imbecilidad. Pero la esencia de la publicidad es transmitir esta idea. En una propaganda de una cerveza equis, por ejemplo, se intenta pasar la idea de que quien consume esta cerveza logra acostarse con las tías más buenas del mundo. De pronto, asociar la marca a un acto imbécil es una contrapropaganda, y aún más ahora, en la era de las redes sociales.

En otros tiempos, la camiseta de Tiago pasaría inadvertida. O la notarían solamente el día siguiente, en las fotos de los periódicos, que, pese a todo, siguen siendo más perenes que las del microsegundo de una imagen de televisión. Además, es poco probable que al ver la foto alguien se acordara de la campaña de marketing de la empresa, la víctima en el caso. A diferencia de Cley Scholz, que asistía a la apuración con el dedo en el gatillo del ordenador y la memoria fresquita, fresquita, atributo esencial para el buen periodismo de hoy, así como el de ayer y de mañana, espero.

Este episodio llama la atención sobre el descuido de las empresas brasileñas con las redes sociales, revelada en una investigación publicada en la revista América Economía.

Las empresas brasileñas invierten muy poco en este sector, aunque se sepa que es en las redes sociales donde se habla mal de muchas marcas, principalmente de las prestadoras de servicios. Antes, cuando había un accidente de avión, era común que la empresa propietaria borrara su logo para que no apareciese en las imágenes asociadas al desastre. Esto, hoy, es indeleble, como lo demuestra el episodio carnaval/Transitions/Varilux.

Traducción: Beatriz Borges

A Somália não é tão longe

Por: | 21 de febrero de 2012




Com a dupla experiência de ex-guerrilheiro e agora consultor em mediação de conflitos, o salvadorenho Joaquín Villalobos manifestou segunda-feira a "El País" seu temor de que a América Central se transforme em uma Somália latino-americana, tomada pela violência e pelo crime organizado.
O que me assusta é que o Brasil, apesar da luminosidade crescente associada a seu nome, tem pontos de contato com a Somália. Não no sentido que Villlalobos deu à comparação, ou seja, a hipótese de que países centro-americanos - em especial Honduras, El Salvador e Guatemala - se tornem "Estados falidos" ("failed States", conforme a nomenclatura em uso contemporaneamente).
Que fique claro: o Brasil vai na direção contrária, a de fortalecimento de suas instituições, ainda que ocorra a um ritmo lento demais para quem já está chegando aos 70 anos e, portanto, não tem tanto tempo pela frente para ver o chamado "país do futuro" 
chegar de fato ao futuro.
Mas, em termos de segurança pública e violência, o Brasil está mais perto da Somália do que gostaríamos de imaginar.
Para começar, as estatísticas de morte violenta entre 2004 e 2009 mostram que Brasil e Somália estão empatados no número de crimes por 100 mil habitantes.
Só por aí já se percebe um grave problema: não é possível que um país que acaba, embora ilusoriamente, de ser alçado ao sexto posto entre as maiores economias do mundo, padeça de uma violência equiparável à de uma das nações mais pobres do mundo e, ainda por cima, um Estado falido, claramente falido.
Mas há mais semelhanças entre o Brasil e os países centro-americanos abatidos pela violência, conforme os dados de ampla e documentada reportagem publicada por "El País" também na segunda-feira.



Primeiro: Brasil e México tem número equivalente de assassinatos por 100 mil habitantes. É dramático para ambos, mas, de certa forma, é mais ainda para o Brasil, se se considerar que o México trava uma guerra aberta contra o crime organizado, que mobilizou até o Exército, ao passo que o Brasil, em tese, não vive similar estado de guerra.
Mas - e aqui há outra coincidência triste - também foi obrigado a recorrer às Forças Armadas para reocupar favelas em que o narcotráfico estabelecera bases aparentemente inexpugnáveis.
Mais coincidências, tristes coincidências: a reportagem de "El País" diz que "en Honduras y El Salvador las violentas maras [bandos delinquentes juvenis] han llegado a una relación simbiótica con el narco. “Las maras sirven como mano de obra barata para el uso de la violencia al servicio de los grandes traficantes y de personas que contratan sus servicios como sicarios”, explica José Miguel Cruz, experto salvadoreño en maras de la Universidad Internacional de la Florida en Miami. Además, “cobran en droga, y la distribuyen, lo que ha provocado el aumento del consumo local”.
Vale para o Brasil: parcela dos jovens, até crianças, das favelas foi cooptada pelo crime organizado da mesma forma que em Honduras e El Salvador. A diferença é só de escala da cooptação, não de conteúdo.
Prossegue a reportagem de "El País": "Para explicar las dificultades de las instituciones en encarar la violencia, el comisionado, Francisco Dall’Anese Ruiz [da Comissão Internacional contra a Impunidade na Guatemala], cuenta esto: “En Guatemala se pagan muy pocos impuestos, no hay dinero para nada. Los salarios de los policías son muy bajos. En muchos casos, la policía estaba implicada en el crimen”. O esto: “Hay zonas muy difíciles de controlar frente al narco, como Petén, fronteriza con México y muy grande. El representante de la Alta Comisionada de Derechos Humanos en Guatemala fue a hacer una visita el año pasado a esa región. Unos narcos le pararon y le pidieron que se identificara para decidir si le dejaban entrar”.
Volto ao Brasil: aqui também os salários dos policiais são baixos, de que deu contundente prova a greve dos policiais na Bahia na antevéspera do carnaval. Aqui também, há envolvimento de policiais com o crime. Aqui também, há zonas em que o Estado não entra. Prova-o o fato, já citado, de que foi preciso utilizar o Exército para poder ocupar algumas favelas com o esquema de UPP (Unidades de Polícia Pacificadora). 
É um modelo bem sucedido mas que só conseguiu recuperar um pequeno número de favelas. As UPPs instaladas até o fim do ano passado eram apenas 18. Os planos prevêem a instalação de mais 22, mas o total de favelas no Rio passa de 600, o que demonstra a escala do problema.

Para fechar as comparações, de maneira não exaustiva, cabe citar observação de Villalobos sobre a América Central: "Existe en sus élites una cultura de convivencia con la violencia y éstas han creado feudos de seguridad y entretenimiento para evadir y olvidar el peligro".
Vale para a América Central, vale para o Brasil: aqui as residências são cada vez mais fortalezas, criam-se condomínios fechados com esquemas de segurança mais e mais sofisticados. Basta lembrar que um edifício de São Paulo está introduzindo um modelo de identificação eletrônica dos moradores: cada um deles, ao chegar, passa um cartão eletrônico em um leitor, que exibe então ao porteiro, na sua, digamos, trincheira, a fotografia do morador. Se conferir com a foto arquivada no sistema, ele entra.
É um sistema idêntico ao que está sendo usado nos fóruns de Davos, a maior concentração mundial de milionários e personalidades, o que justifica o aparato de segurança. No Brasil, é o medo, até porque ele não decorre apenas dos assassinatos mas de outros tipos comuns e mais frequentes de crimes, desde o "sequestro-express", muito comum também no México, até os chamados "arrastões" em edifícios, em que um bando invade um local e rouba todos os apartamentos que consegue, super-armados.

Somalia no está tan lejos

Por: | 21 de febrero de 2012

El salvadoreño Joaquín Villalobos manifestó el lunes a El País su temor a que Latinoamérica se transforme en una Somalia latinoamericana, controlada por la violencia y el crimen organizado. Lo dice un hombre con doble experiencia, como exguerrillero y consultor para mediación en conflictos.

Lo que me asusta es que Brasil tiene puntos en común con Somalia, pese a la luminosidad creciente asociada a su nombre. No en el sentido de la comparación que hizo Villalobos, o sea, la hipótesis de que los países centroamericanos se transformen en Estados fallidos, en especial Honduras, El Salvador y Guatemala.

Que quede claro: Brasil va en la dirección opuesta, la del fortalecimiento de sus instituciones. Aunque esto ocurra a un ritmo demasiado lento para uno que está llegando a los 70 y, por lo tanto, no tiene tanto tiempo por delante para ver el llamado “país del futuro” llegar, de hecho, al futuro.

Brasil está más cerca de Somalia en términos de seguridad pública y violencia de lo que nos gustaría imaginar. Para empezar, las estadísticas de homicidios entre 2004 y 2009 enseñan que Brasil y Somalia empatan en número de crimines por cada 100.000 habitantes. Este dato por sí solo ya enseña un grave problema. No es posible que un país que acaba de ser alzado al sexto puesto entre las mayores economías del mundo, aunque ilusoriamente, padezca de una violencia equiparable a una de las naciones más pobres del mundo. Y Somalia, además, es un Estado fallido, claramente fallido.

Pero hay más similitudes entre Brasil y los países centroamericanos abatidos por la violencia, según los datos del amplio y documentado reportaje publicado por EL PAÍS, también el lunes.

Primero: Brasil y México tienen el mismo número de homicidios por cada 100.000 habitantes. De cierta manera, es dramático para ambos. México tiene una guerra abierta contra el crimen organizado, para la que movilizó incluso el Ejército. Esto hace con que las estadísticas sean todavía más dramáticas para Brasil, que no vive un estado similar de guerra. Pero aquí hay otra triste coincidencia. Brasil también fue obligado a recurrir a las Fuerzas Armadas para recuperar las favelas en las que el narcotráfico había establecido bases aparentemente inexpugnables. 

Más coincidencias, tristes coincidencias. El reportaje de EL PAÍS dice que “en Honduras y El Salvador las violentas maras [bandos delincuentes juveniles] han llegado a una relación simbiótica con el narco. “Las maras sirven como mano de obra barata para el uso de la violencia al servicio de los grandes traficantes y de personas que contratan sus servicios como sicarios”, explica José Miguel Cruz, experto salvadoreño en maras de la Universidad Internacional de la Florida en Miami. Además, “cobran en droga, y la distribuyen, lo que ha provocado el aumento del consumo local.””


Lo mismo vale para Brasil. Una parte de los jóvenes de las favelas, así como niños, fueron cooptados por el crimen organizado de la misma forma que sucedió en Honduras y en El Salvador. La diferencia es la escala de cooptación, no el contenido.

Prosigue el reportaje de EL PAÍS: “Para explicar las dificultades de las instituciones en encarar la violencia, el comisionado, Francisco Dall’Anese Ruiz [de la Comisión Internacional contra la Impunidad en Guatemala], cuenta esto: “En Guatemala se pagan muy pocos impuestos, no hay dinero para nada. Los salarios de los policías son muy bajos. En muchos casos, la policía estaba implicada en el crimen”. O esto: “Hay zonas muy difíciles de controlar frente al narco, como Petén, fronteriza con México y muy grande. El representante de la Alta Comisionada de Derechos Humanos en Guatemala fue a hacer una visita el año pasado a esa región. Unos narcos le pararon y le pidieron que se identificara para decidir si le dejaban entrar”.

Vuelvo a Brasil: aquí los sueldos de los policías también son bajos. Lo demuestra, de forma contundente, la huelga de los policías de Bahía, en vísperas de carnavales.

Los policías están envueltos en el crimen aquí también. Aquí también hay zonas en las que el Estado no entra. Lo prueba el hecho ya citado, de que ha sido necesario utilizar el Ejército para ocupar algunas favelas y establecer en ellas las llamadas Unidades de Policía Pacificadora (UPP).

Un modelo de éxito, pero que solo logró recuperar un pequeño numero de favelas. Hasta el final del año pasado, solo 18 UPPs habían sido instaladas. Se prevé la instalación de 22 más, pero en Rio hay más de 600 favelas, lo que demuestra la escala del problema.

Para terminar las comparaciones, en una lista no exhaustiva, cabe citar la observación de Villalobos sobre Centroamérica: “Existe en sus élites una cultura de convivencia con la violencia y éstas han creado feudos de seguridad y entretenimiento para evadir y olvidar el peligro”.

Vale para Centroamérica y vale para Brasil: aquí las residencias son cada vez más parecidas a fortalezas. Se crean condominios privados con aparatos de seguridad cada vez más sofisticados. Un edificio de São Paulo está introduciendo un modelo de identificación electrónica para sus habitantes. Cada uno de ellos, al llegar, debe pasar una tarjeta electrónica en un lector, que trasmite la fotografía del habitante al portero, que está en su, digamos, trinchera. Si es igual a la foto del archivo del edificio, él puede entrar.

Es un sistema idéntico al que se usa en los foros de Davos, la mayor concentración mundial de millonarios y personalidades. En este caso, la seguridad está justificada. En Brasil la justifica el miedo, porque no son solamente los homicidios, sino otros tipos más comunes y más frecuentes de crímenes. Desde el secuestro exprés, muy común también en México, hasta los arrastoes en edificios, una acción en la que un grupo de delincuentes bien armados invaden un local y roban todos los pisos que pueden.

Traducción: Beatriz Borges

Mesmos cortes, outros resultados

Por: | 16 de febrero de 2012




A moda dos cortes no orçamento, em vigor na Europa dos últimos dois anos, acaba de desembarcar no Brasil. Mas, como quase tudo que se faz nos trópicos, chegou temperada pelo famoso "jeitinho" brasileiro. Não que o corte seja pequeno. Vai a R$ 55 bilhões (equivalentes a € 24,5 bilhões), o que é sempre muito para um país ainda subdesenvolvido, por mais que os mercados prefiram agora chamá-lo de emergente. Equivale a 6,3% do orçamento original.
O "jeitinho" se dá pelo fato de que quase a metade do corte anunciado (R$ 20 bilhões ou pouco menos de € 9 bilhões) não são cortes efetivos mas em expectativa de gastos.
De todo modo, há uma semelhança e uma colossal diferença entre os cortes à brasileira e a austeridade europeia. A semelhança: o objetivo no Brasil também é o de sinalizar aos mercados que a dívida pública continuará se reduzindo, como proporção do PIB. Ou seja, o Brasil quer conservar a imagem de bom pagador, construída a elevado custo nos últimos 10 ou 15 anos.
Diz editorial do jornal "Folha de S. Paulo": "Essa é a mensagem mais relevante a reter do anúncio de que o governo deixará de gastar cerca de R$ 55 bilhões dos R$ 866 bilhões de despesa autorizada pelo Congresso Nacional".
O governo se compromete a manter um superávit primário - ou seja, receitas menos despesas, excluídos os gastos com juros da dívida - na imponente altura de 3,1% do PIB. São as gotas de sangue oferecidas às piranhas dos mercados financeiros.
Mas, ao contrário da Europa, os cortes não devem provocar recessão nem mesmo desaceleração do crescimento, ao menos na avaliação do próprio governo. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, jura que o crescimento de 2012 ficará em torno de 4,5%, mais do que os 4%, pouco ou mais, previstos para 2011.
O governo jura também que os cortes não afetarão os investimentos sociais, do que duvida um analista como Josias de Souza, um dos blogueiros mais relevantes e competentes do Brasil. 

É razoável supor que, em relação ao crescimento, o governo tenha razão. Por um motivo simples: o crescimento brasileiro tem sido alavancado por um mercado interno desde sempre formidável (200 milhões de habitantes não é para qualquer país), mas que se tornou realmente relevante a partir do aumento da renda familiar ocorrido nos últimos oito anos.

O consumo, por sua vez, depende, como é óbvio, da manutenção do emprego. No Brasil -e eis a grande diferença com a Europa - há quase pleno emprego. Só não há também pleno consumo porque a renda, por mais que tenha aumentado, ainda é baixa na comparação com qualquer país europeu.
Mesmo a desaceleração do ano passado (o crescimento reduziu-se praticamente à metade dos luminosos 7,5% de 2010), não houve aumento do desemprego.
O problema, para o médio prazo, é que as taxas de crescimento continuam muito aquém das necessidades de um país em desenvolvimento e muito abaixo das que registram, por exemplo, a China e a Índia, parceiros do Brasil nos Brics.
Um dos motivos é justamente a elevada porcentagem do orçamento que vai para o pagamento da dívida, uma relação assim analisada no editorial da "Folha de S. Paulo": "Embora a dívida pública baixe como proporção do PIB, o débito é integralmente refinanciado a cada três anos. O país está para completar uma década de crescimento ao ritmo de 4% ao ano, com alta ainda maior da receita de impostos, mas o setor público ainda registra seus déficits de 2,5% do PIB".
Há um segundo problema, este político, na maneira como a presidente Dilma Rousseff decidiu fazer os cortes: eles atingirão todas as emendas apresentadas por parlamentares. Aceitar tais emendas é uma maneira de manter o apoio de partidos basicamente de aluguel, em uma operação típica de compra e venda, usual na política brasileira desde sempre.
É evidente que o corte vai provocar irritação entre tais partidos, de que dá prova a declaração de Lincoln Portela, líder do PR (Partido da República, que não se perca pelo nome): "Se for corte das emendas individuais, o governo bebeu; se for corte das emendas de bancada, o governo bebeu também".
Como o governo está sóbrio, falta saber como será a reação do PR e outros partidos semelhantes na hora de votações importantes no Congresso.

Los mismos recortes, otros resultados

Por: | 16 de febrero de 2012

La moda de los recortes en el presupuesto, que desde hace dos años está en vigor en Europa, acaba de llegar a Brasil. Pero llegó sazonada con la forma de ser del brasileño, como todo aquello que se hace en los trópicos. No que el recorte sea pequeño. Son 55 billones de reais (equivalentes a 24,5 billones de euros). Lo que siempre es mucho para un país todavía subdesarrollado, aunque ahora los mercados prefieran llamarle emergente. Equivale al 6,3% del presupuesto previsto.

Sin embargo, casi la mitad de lo anunciado no serán recortes de hecho, sino recortes en la expectativa de gastos (cerca de 20 billones de reais, poco menos de 9 billones de euros). Esto es un claro ejemplo de la forma de ser del brasileño cuando se hace un recorte.

De todos modos, hay una similitud y una colosal diferencia entre los recortes a la brasileña y la austeridad europea.

La similitud: Brasil quiere avisar a los mercados que la deuda pública seguirá reduciéndose, proporcionalmente al PIB. Es decir, Brasil quiere conservar la imagen de buen pagador, construida a un precio elevado durante los últimos 10 o 15 años. Un editorial del periódico Folha de S. Paulo decía: “Este es el mensaje más relevante: que el gobierno no gastará 55 billones de los 866 billones previstos para los ‘gastos autorizados en el presupuesto’, aprobados por el Congreso Nacional”.

El gobierno se compromete a mantener el superávit primario en un imponente 3,1% del PIB. Por superávit primario se entiende liquidez menos gastos, sin contar los intereses de la deuda. Son las gotas de sangre ofrecidas a las pirañas de los mercados financieros.

Según la evaluación del propio gobierno, los recortes no deben provocar recesión ni desaceleración del crecimiento, lo contrario de lo que pasó en Europa. El ministro de Hacienda, Guido Mantega, juró que el crecimiento de 2012 será del 4,5%, superior al 4 y algo previsto para 2011. El gobierno también jura que los recortes no afectarán a las inversiones sociales. El analista Josias de Souza, uno de los blogueros más relevantes y competentes de Brasil, lo duda.

Quizás el gobierno tenga razón respecto al crecimiento. Por una simple razón: el crecimiento brasileño está apalancado por un mercado interno siempre formidable (no todos los países tienen 200 millones de habitantes). Pero el mercado interno se tornó realmente relevante a partir del aumento de la renta familiar durante  los últimos ocho años.

Por su parte, el consumo obviamente depende del mantenimiento del trabajo. En Brasil hay una situación de casi pleno empleo. Esta es la gran diferencia entre Brasil y Europa. Solo no hay pleno consumo porque la renta todavía es baja comparada con cualquier país europeo, aunque haya aumentado últimamente.

No hubo un aumento del paro pese a la desaceleración del año pasado, cuando el crecimiento se redujo a la mitad del luminoso 7,5% de 2010.

A medio plazo, el problema será que las tasas de crecimiento sigan por debajo de las necesidades de un país en desarrollo. Y muy por debajo de las que registran, por ejemplo, China e India, socios de Brasil en los Brics. Una de las razones para que la tasa de crecimiento no sea más alta son los gastos con el pago de la deuda, que consume un gran porcentaje del presupuesto. En un editorial de Folha de S. Paulo: “Aunque baje proporcionalmente al PIB, la deuda pública es integralmente renegociada cada tres años. El país completará una década de crecimiento al ritmo del 4% al año; sus ingresos provenientes de impuestos en el mismo periodo aumentaron todavía más, pero el sector público aún registra el 2,5% del PIB en déficits”.

La manera en que la presidenta Dilma Rousseff decidió recortar fue un segundo problema, aunque político. Los recortes afectarán todas las enmiendas presentadas por los parlamentarios. Aceptar estas enmiendas es una forma de mantener el apoyo de los partidos de alquiler, en una operación típica de compra y venta común en la política brasileña desde siempre.

Es evidente que el recorte molestará a estos partidos. La declaración de Lincoln Portela, líder del Partido de la República (no os confundáis con el nombre) da prueba de ello: “Si se trata de las enmiendas individuales, el gobierno está borracho; si se trata de las enmiendas del grupo parlamentario, el gobierno también está borracho”.

Como el gobierno está sobrio, nos falta conocer la reacción del Partido de la República y otros similares durante las votaciones importantes en el Congreso.

Traducción: Beatriz Borges

A lenda da queda da desigualdade

Por: | 13 de febrero de 2012



O debate, em El País.com, sobre os "pés de barro" do emergente Brasil provocou inúmeras menções à obscena desigualdade social, uma chaga aberta permanentemente no país.
O pior é que, nos últimos anos, houve uma insólita coincidência entre economistas liberais e os ex-esquerdistas do PT para decretar que a desigualdade estava diminuindo. Pura mistificação.
O que pode estar eventualmente diminuindo, mesmo assim muito pouco, é a desigualdade entre assalariados. A verdadeira obscenidade, que é diferença de renda entre capital e trabalho, não foi tocada. Provavelmente até piorou.
Comecemos pela coincidência: os primeiros a falar em redução da desigualdade foram economistas liberais, que se opunham às teses econômicas que o Partido dos Trabalhadores defendeu a vida toda, até chegar ao poder federal. Aí, o próprio líder máximo do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, admitiu que o que defendia antes não passava de "bravatas".
Tanto no governo Lula como no de sua afilhada e sucessora Dilma Rousseff foram adotadas políticas pró-mercado, para alívio e alegria dos economistas ortodoxos
Já os raros economistas que continuaram à esquerda, como Reinaldo Gonçalves, professor titular de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, não se alegraram nem um pouco. Escreveu Gonçalves:
"Com raras exceções, essas políticas limitam-se a alterar a distribuição da renda na classe trabalhadora (salários, aposentadorias e benefícios) sem alterações substantivas na distribuição funcional da renda, que inclui, além do salário e das transferências, as rendas do capital (lucro, juro e aluguel)".
Esse é o xis da questão. Todos os estudos que apontam para a queda da desigualdade referem-se apenas à salários. Também o índice de Gini, a mais conhecida medida da desigualdade, contabiliza apenas salários.
Mas os economistas liberais não enfatizam esse ponto em suas pesquisas - e os jornalistas compramos a versão abrangente de "queda na desigualdade", sem acrescentarmos "entre salários".
O fato é que não há elementos para fazer a comparação entre ganhos do capital e ganhos dos salários. As únicas indicações são as pesquisas em que o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) pergunta ao entrevistado quanto ele ganha. É só você mesmo fazer um teste: se lhe fizerem esse tipo de pergunta, você responderá automaticamente qual é o seu salário - e apenas o seu salário.
Vai omitir, de boa fé, eventuais ganhos com aplicações financeiras, porque simplesmente não se lembra, não lhe vem a cabeça.
Quem tem elevados rendimentos provenientes de lucros, juros, aluguéis e aplicações financeiras em geral, tende a omitir de propósito tais rendimentos, com medo do Fisco, sentimento natural e inescapável no mundo todo. Ou, então, no Brasil, com medo da criminalidade.
Um estudo do Ipea (Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas), organismo oficial, chegou a detectar 90% de sub-declaração de rendimentos nesse tipo de levantamento.
Fica claro, pois, que quem vive de salário declara o que ganha. Quem tem também outras rendas ou vive delas não declara o total, de boa ou má fé. Então, torna-se impraticável afirmar que houve queda na desigualdade, a não ser entre assalariados.
Por quê os economistas liberais põem em letra pequena que a queda na desigualdade está limitada aos salários? Minha suspeita: ao demonstrar que houve queda da desigualdade, sem especificar qual delas, fica implícito que as políticas que vêm sendo adotadas desde o governo Fernando Henrique Cardoso, continuadas por Lula e agora por Dilma, não precisam ser modificadas, uma vez que estão mexendo na ferida da iniquidade social.
Ou, posto de outra forma, os petistas não precisam voltar às suas velhas teses "Robin Hood", de tirar dos ricos para dar aos pobres, porque essa transferência já estaria ocorrendo sem precisar mexer na renda dos ricos.
Essa mistificação provavelmente esconde um aumento na desigualdade da renda "lato sensu". Basta saber que no ano passado o governo federal dedicou 5,72% do PIB brasileiro ao pagamento de juros de sua dívida. Já o Bolsa Família, o programa de ajuda aos mais pobres, consumiu magro 0,4% do PIB.
Resumo da história: para 13.330.714 famílias cadastradas no Bolsa Família, vai 0,4% do PIB. Para um número infinitamente menor, mas cujo tamanho exato se desconhece, vão 13 vezes mais. O economista João Sicsú, também da Universidade Federal do Rio de Janeiro, chegou a calcular em apenas 1 milhão de famílias o número de detentores de títulos públicos, generosamente remunerados pelo governo.
Fábio Barbosa, então presidente da Federação Brasileira de Bancos, contestou o número em conversa informal comigo. Mas não tinha ideia de qual seria o número correto. Mesmo que seja cinco vezes maior que o calculado por Sicsú, teríamos a seguinte equação: 13 milhões de famílias, os pobres entre os pobres, ganham 0,4% do PIB; 5 milhões de famílias, de classe média alta ou ricas, ganham 5,72% do PIB.
Se isso é distribuição de renda, é dos pobres para os ricos, uma observação feita, aliás, por um antigo membro da primeira equipe de Lula, o professor Carlos Lessa, então presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social.
Observação repetida faz pouco por Silvio Caccia Bava, editor de Le Monde Diplomatique Brasil e coordenador geral do Instituto Pólis: "Desde o final da década de 1990 o Brasil vem transferindo anualmente de 5% a 8% do PIB para os ricos, por meio principalmente dos juros, amortizações e refinanciamentos da dívida pública interna. Quem compra títulos do governo brasileiro tem o maior rendimento do mundo! Quarenta e cinco por cento do orçamento geral da União, algo como R$ 635 bilhões em 2010, remuneram esse investimento. Isso sem falar nos R$ 116,1 bilhões de isenções tributárias/redução de impostos para os ricos e suas empresas. Para ter uma comparação, R$ 7,5 bilhões foram destinados em 2011 para o saneamento básico, num país onde 45% dos municípios não coletam esgoto".
Mas, atenção, não confundir redução da desigualdade, que não houve, com redução da pobreza, que houve, sim, como mostra o gráfico abaixo. Ou seja, o Brasil não caiu no pior dos mundos, ao contrário, por exemplo, de países como os Estados Unidos, em que os ricos têm ficado cada vez mais ricos e, os pobres, cada vez mais pobres. Nestes trópicos, os ricos continuam enriquecendo espetacularmente mas os pobres não estão ficando mais pobres. A distância entre eles é que continua igual - ou maior.

La leyenda de la disminución de la desigualdad

Por: | 13 de febrero de 2012

El debate en El País sobre los pies de barro del emergente Brasil provocó innúmeras menciones a su obscena desigualdad social, una herida permanentemente abierta en el país. Lo peor es que durante los últimos años hubo una insólita coincidencia entre economistas liberales y exizquierdistas del PT*: ambos decretaron la disminución de la desigualdad. Pura mistificación.

La desigualdad entre asalariados puede que esté reduciéndose, pero aun así, muy poco. La verdadera obscenidad es la diferencia de renta entre capital y trabajo, que no cambió. Probablemente haya empeorado. Empecemos con la coincidencia. Los primeros a hablar sobre la disminución de la desigualdad fueron los economistas liberales. Los mismos que se oponían a las tesis económicas que el PT defendió toda la vida. Y estos últimos, defendían su tesis hasta que llegaron al poder. Entonces, el líder máximo del PT, Luiz Inácio Lula da Silva, admitió que lo que defendía antes no pasaba de “baladronadas”. Para el alivio y la alegría de los economistas ortodoxos, tanto el gobierno de Lula como el de su ahijada y sucesora, Dilma Rousseff, han adoptado políticas pro mercado.

Ya los economistas raros que continuaron en la izquierda, como el profesor de Economía de la Universidad Federal de Rio de Janeiro, Reinaldo Gonçalves, no se alegraron. Gonçalves escribió:

“Con raras excepciones, estas políticas se limitaron a cambiar la distribución de renta entre la clase trabajadora (sueldos, jubilaciones, beneficios) sin cambios profundos en la distribución funcional de la renta, que incluye la renta del capital (ganancias, intereses, alquiler), además del sueldo y de las transferencias.”

Esta es la cuestión. Todos los estudios que apuntan la disminución de la desigualdad se refieren solamente a los sueldos. Hasta el índice Gini, el más conocido de los índices de desigualdad, considera solamente los sueldos.

Pero los economistas liberales no enfatizan este punto en sus investigaciones. Y los periodistas compramos la versión más abarcadora, que dice “disminución de la desigualdad”, sin añadir “entre sueldos”.

El hecho es que no hay elementos para comparar las ganancias del capital y las ganancias del sueldo. Las únicas indicaciones sobre cuánto cobra un ciudadano las da el Instituto Brasileño de Geografía y Estadística, IBGE, que en sus encuestas hace esta pregunta al entrevistado. Para comprobarlo, puedes hacerte un test. Si te preguntan ¿Cuál es tu sueldo? contestarás automáticamente y solamente hablarás de tu sueldo. Omitirás de buena fe lo que ganas con aplicaciones financieras, porque simplemente no te acuerdas, no te viene a la cabeza.

Aquellos que tienen una renta elevada proveniente de ganancias, intereses, alquileres y aplicaciones financieras en general, tienen la tendencia a omitir adrede estos rendimientos. Lo hacen porque tienen miedo del Fisco, un sentimiento natural e ineludible en todo el mundo. O también por miedo de la criminalidad, en el caso de Brasil.

Un estudio del Instituto de Investigaciones Económicas Aplicadas (Ipea), detectó que el 90% de las personas que contestan a las encuestas omiten este tipo de rendimientos. Está claro que aquellos que viven del sueldo declaran lo que ganan. Aquellos que también tienen otras rentas o viven de ellas no lo declaran su totalidad, de buena o mala fe. Entonces es imposible afirmar que hubo una disminución de la desigualdad, no sea que nos limitemos a hablar de los asalariados.

¿Por qué los economistas liberales escriben en letras pequeñas que la disminución de la desigualdad está limitada a los sueldos? Mi sospecha: cuando se demuestra que hubo una disminución de la desigualdad, sin especificar en cuál de ellas, queda implícito que no hace falta modificar las políticas adoptadas desde el gobierno de Fernando Henrique Cardoso, mantenidas por Lula y ahora por Dilma. Políticas que están tocando la herida de la injusticia social.

Es decir, los del PT no necesitan volver a su tesis Robin Hood, de quitar de los ricos para dárselo a los pobres. Esta transferencia ya estaría ocurriendo sin necesidad de tocar la renta de los ricos.

Esta mistificación probablemente esconde un aumento de la desigualdad de renta en un amplio sentido. El año pasado el gobierno dedicó el 5,72% del PIB brasileño al pago de los intereses de su deuda interna. Ya el Bolsa Familia, el programa de ayuda para los más pobres, consumió un delgado 0,4% del PIB.

Resumen: 13.330.714 familias inscritas en el Bolsa Familia llevan un 0,4% del PIB. Los que poseen títulos de la deuda, número de personas que es un valor infinitamente menor, pero cuyo tamaño exacto se desconoce, llevan 13 veces más. El economista João Sicsú, también de la Universidad Federal de Rio de Janeiro, calcula que haya solamente un millón de familias que tienen títulos de deuda pública, generosamente remunerados por el gobierno. Fabio Barbosa, entonces presidente de la Federación Brasileña de Bancos, habló conmigo sobre este número en una conversación informal. Pero no tenía idea de cual sería el correcto. Si fuese cinco veces mayor que el calculado por Sicsú, tendríamos la siguiente ecuación:

13 millones de familias, los pobres entre los pobres, ganan un 0,4% del PIB;

5 millones de familias de clase media alta o ricas ganan el 5,72% del PIB.

Si esto es distribución de renta, lo es de los pobres para los ricos.

Esta observación la hizo un antiguo miembro del primer equipo de Lula, el profesor Carlos lessa, entonces presidente del Banco Nacional de Desarrollo Económico y Social. Observación repetida hace poco por Silvio Caccia Bava, editor de Le Monde Diplomatique Brasil y coordinador general del instituto Pólis. Caccia dijo: “Desde el final de la década de 1990 Brasil transfiere anualmente entre un 5 y un 8% del PIB a los ricos a través de intereses, depreciaciones y renegociaciones de la deuda pública interna. Quien compra títulos del gobierno brasileño tiene el mayor rendimiento del mundo. El 45% del presupuesto general del país, algo alrededor de 635 billones de reais en 2010, remuneran esta inversión. Sin mencionar los 116,1 billones de exenciones o reducciones tributarias para los ricos y sus empresas. Para hacer una comparación, en 2011, 7,5 billones fueron destinados a la creación del sistema de alcantarillado, en un país donde el 45% de los municipios no tiene este servicio”.

Pero atención. No se puede confundir la disminución de la desigualdad, que no ocurrió, con la reducción de la pobreza, que sí ocurrió, como enseña el grafico de abajo. O sea, Brasil no cayó en el peor de los mundos. Lo contrario, por ejemplo, de países como los Estados Unidos, donde los ricos están cada vez más ricos y los pobres, cada vez más pobres. En estos trópicos los ricos siguen enriqueciendo espectacularmente. Pero los pobres no están más pobres. Lo que sigue igual o mayor es la distancia entre ellos.

PT: Partido de los Trabajadores, el partido del gobierno de Dilma Rousseff.

Traducción: Beatriz Borges

El País

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