Clovis Rossi

Dilma, Obama e o Irã

Por: | 30 de marzo de 2012




Nas suas relações com os Estados Unidos, o Brasil pode tropeçar uma segunda vez em uma pedra chamada Irã. E em ambas tem razão.
O tropeço a caminho tem o seguinte formato: no dia 10, Dilma Rousseff vai aos Estados Unidos, para a sua primeira visita oficial ao parceiro (já esteve antes, mas para eventos das Nações Unidas).
Não obstante, teve a franqueza de, apenas duas semanas antes, criticar duramente a política de Washington para o Irã. Foi em conferência de imprensa para os jornalistas brasileiros que cobrimos a quarta cúpula dos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), em Nova Déli.
"O Brasil acha extremamente perigosas as medidas de bloqueio de compras do Irã, apesar de não termos relações comerciais com o Irã", disparou Dilma (relações até existem mas são realmente inferiores a 1% das exportações brasileiras e menos ainda para a importação).
Os Estados Unidos, com apoio europeu, estão pressionando países que compram petróleo iraniano para que deixem de fazê-lo, o que equivaleria a cortar a linha da vida para o país dos aiatolás.
A Rússia até que pressionou para que o documento final dos BRICS denunciasse a pressão dos Estados Unidos, mas não funcionou. (Íntegra do texto).
Embora o Brasil não compre ou compre pouco, Dilma mostrou-se compreensiva com "outros países que precisam dessas compras". Não mencionou nomes, mas é óbvio que estava se referindo a dois dos BRICS: China, que importa do Irã 22% de suas necessidades de petróleo, e Índia, que supre 13% de seu consumo com o óleo iraniano.
A ênfase do texto ficou na necessidade de evitar que a situação relativa ao Irã "escale em direção a um conflito". Preocupação idêntica à que Dilma expressaria na sua conferência de imprensa: "Que as partes baixem o nível da retórica e se entendam", cobrou.
Tanto no comunicado como na fala da presidente, a alusão é às reiteradas insinuações de Israel de que é necessário atacar o Irã antes de que seu programa nuclear atinja um ponto em que a obtenção da bomba atômica seja irreversível. É também alusão à frase do presidente Barack Obama segundo a qual "todas as opções estão sobre a mesa" no contencioso iraniano.
"Todas as opções" significa incluir a opção militar, como é óbvio.
Por que digo que Dilma está certa em tropeçar na pedra Irã? Porque, diz ela, impor sanções [ao Irã ou a qualquer país] só vale se for "no âmbito das Nações Unidas e do direito internacional", e não por "decisões de países".
Tradução: parte das sanções ao Irã foi de fato adotada no âmbito das Nações Unidas, sem que a Rússia e a China vetassem, embora tenham tal poder. Mas, depois, Estados Unidos e União Europeia ampliaram a lista de punições, além de pressionarem outros países a não comprar o petróleo iraniano.
É óbvio que respeitar a legalidade internacional é condição sine qua non para aceitar ações de qualquer natureza, principalmente militares, contra qualquer país.
Dilma cobra ainda que, "em vez da retórica agressiva, se reconheça o direito dos países de usar a energia nuclear para fins pacíficos, assim como nós o fazemos".
Os Estados Unidos e a Europa não negam esse direito iraniano, mas não acreditam que o programa nuclear tenha apenas finalidades pacíficas.
O comunicado dos Brics também reitera esse direito, mas introduz uma nuance que Dilma não fez: que o direito iraniano seja "consistente com suas obrigações internacionais". Tradução: o Irã precisa cooperar com a Agência Internacional de Energia permitindo inspeções que eliminem toda e qualquer dúvida sobre o caráter do programa.
Passo então à primeira pedra em que o Brasil tropeçou em suas relações com o Irã e com os EUA. Em 2009, Barack Obama e o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva encontraram-se às margens de uma reunião do G8+5, em L'Aquila (Itália).


Depois do encontro, o porta-voz de Obama, então Robert Gibbs me disse que, entre outros assuntos, haviam conversado sobre o Irã. Obama sugeriu a Lula, que estava para receber o presidente Ahmedinejad em Brasília, que insistisse na necessidade de o Irã limitar seu programa nuclear a usos pacíficos.
O presidente norte-americano teria até sugerido que Lula jogasse na conversa o exemplo brasileiro, cuja Constituição impõe o limite proposto para o Irã.
Um ano depois, Lula devolveu a visita a Ahmedinejad, mas, antes, recebeu carta de Obama em que este listava os pontos essenciais para um acordo com o Irã, que estava sendo negociado pelo Brasil e pela Turquia.
O acordo foi fechado praticamente nos termos desejados pelos norte-americanos. Inclusive - e principalmente - no ponto em que previa a entrega de 1.200 quilos de urânio pobremente enriquecido para a Rússia ou a França para enriquecimento a um nível que só serve mesmo para finalidades pacíficas (médicas).
Essa quantidade era considerada "fundamental" na carta de Obama.
Apareceu no acordo, mas, assim mesmo, foi descartado pelos Estados Unidos, que preferiram propor sanções ao Conselho de Segurança, afinal aprovadas, até com apoio de China e Rússia, que deixaram seu parceiro dos BRICS falando sozinho.
O que mudou entre as conversas Obama/Lula e a carta do norte-americano, só Washington pode explicar, mas minha impressão é a de que os Estados Unidos trocaram o "engajamento" a que Obama se propôs logo após a posse pelo confronto. E não avisaram Lula.
Hoje, está claro que não se avançou absolutamente nada nem no confronto nem na negociação. Fica, pois, a pergunta que não terá resposta: o mundo não estaria melhor se se tivesse, à época,
dado uma chance para o acordo Brasil/Turquia/Irã prosperar?
  

Hay 4 Comentarios

……… Obrigado por compartilhar suas idéias ... Eu vou levá-lo para um artigo no futuro

De verdade como pode os govenos seren ta0 "futibolista", acho que Brasil so vai ser tratado como um país de verdade quando começe a tomar decizoes por ele mesmo(Dizer nao!), por que vejo que ate o presidente de otros pais(E.U.A) ve a Brasil como um time de futibol e nao uma naçao en desenvolvimento.

Näo há interesse na Paz e os de Israel, aquela boa gente, querem a destruiçäo do Irä, ajudados pelos americanos.

Moral da história: o governo Obama entendia naquela altura que se tudo desse errado, via aceitação do Irã, sairia mais barato o 'coice' diplomático ao Brasil. Pois é. Há por São Paulo uma máxima popular para se referir a algo ruim ou péssimo, cuja sabedoria informa que "de graça, tá caro". Tudo a ver com esse famigerado episódio.

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Sobre el autor

Clovis Rossi. 48 años de periodismo, columnista del diario "Folha de S. Paulo" y del portal Folha.com, ya ejerció todas las funciones posibles en el periodismo, de reportero a editor-jefe, ganador de los premios Maria Moors Cabot, de la Universidad Columbia (NY) y de la Fundación Nuevo Periodismo Iberoamericano, dirigida por Gabriel García Márquez, los dos por el conjunto de la obra.

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