Clovis Rossi

Sobre el autor

Clovis Rossi. 48 años de periodismo, columnista del diario "Folha de S. Paulo" y del portal Folha.com, ya ejerció todas las funciones posibles en el periodismo, de reportero a editor-jefe, ganador de los premios Maria Moors Cabot, de la Universidad Columbia (NY) y de la Fundación Nuevo Periodismo Iberoamericano, dirigida por Gabriel García Márquez, los dos por el conjunto de la obra.

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Dilma, Obama e o Irã

Por: | 30 de marzo de 2012




Nas suas relações com os Estados Unidos, o Brasil pode tropeçar uma segunda vez em uma pedra chamada Irã. E em ambas tem razão.
O tropeço a caminho tem o seguinte formato: no dia 10, Dilma Rousseff vai aos Estados Unidos, para a sua primeira visita oficial ao parceiro (já esteve antes, mas para eventos das Nações Unidas).
Não obstante, teve a franqueza de, apenas duas semanas antes, criticar duramente a política de Washington para o Irã. Foi em conferência de imprensa para os jornalistas brasileiros que cobrimos a quarta cúpula dos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), em Nova Déli.
"O Brasil acha extremamente perigosas as medidas de bloqueio de compras do Irã, apesar de não termos relações comerciais com o Irã", disparou Dilma (relações até existem mas são realmente inferiores a 1% das exportações brasileiras e menos ainda para a importação).
Os Estados Unidos, com apoio europeu, estão pressionando países que compram petróleo iraniano para que deixem de fazê-lo, o que equivaleria a cortar a linha da vida para o país dos aiatolás.
A Rússia até que pressionou para que o documento final dos BRICS denunciasse a pressão dos Estados Unidos, mas não funcionou. (Íntegra do texto).
Embora o Brasil não compre ou compre pouco, Dilma mostrou-se compreensiva com "outros países que precisam dessas compras". Não mencionou nomes, mas é óbvio que estava se referindo a dois dos BRICS: China, que importa do Irã 22% de suas necessidades de petróleo, e Índia, que supre 13% de seu consumo com o óleo iraniano.
A ênfase do texto ficou na necessidade de evitar que a situação relativa ao Irã "escale em direção a um conflito". Preocupação idêntica à que Dilma expressaria na sua conferência de imprensa: "Que as partes baixem o nível da retórica e se entendam", cobrou.
Tanto no comunicado como na fala da presidente, a alusão é às reiteradas insinuações de Israel de que é necessário atacar o Irã antes de que seu programa nuclear atinja um ponto em que a obtenção da bomba atômica seja irreversível. É também alusão à frase do presidente Barack Obama segundo a qual "todas as opções estão sobre a mesa" no contencioso iraniano.
"Todas as opções" significa incluir a opção militar, como é óbvio.
Por que digo que Dilma está certa em tropeçar na pedra Irã? Porque, diz ela, impor sanções [ao Irã ou a qualquer país] só vale se for "no âmbito das Nações Unidas e do direito internacional", e não por "decisões de países".
Tradução: parte das sanções ao Irã foi de fato adotada no âmbito das Nações Unidas, sem que a Rússia e a China vetassem, embora tenham tal poder. Mas, depois, Estados Unidos e União Europeia ampliaram a lista de punições, além de pressionarem outros países a não comprar o petróleo iraniano.
É óbvio que respeitar a legalidade internacional é condição sine qua non para aceitar ações de qualquer natureza, principalmente militares, contra qualquer país.
Dilma cobra ainda que, "em vez da retórica agressiva, se reconheça o direito dos países de usar a energia nuclear para fins pacíficos, assim como nós o fazemos".
Os Estados Unidos e a Europa não negam esse direito iraniano, mas não acreditam que o programa nuclear tenha apenas finalidades pacíficas.
O comunicado dos Brics também reitera esse direito, mas introduz uma nuance que Dilma não fez: que o direito iraniano seja "consistente com suas obrigações internacionais". Tradução: o Irã precisa cooperar com a Agência Internacional de Energia permitindo inspeções que eliminem toda e qualquer dúvida sobre o caráter do programa.
Passo então à primeira pedra em que o Brasil tropeçou em suas relações com o Irã e com os EUA. Em 2009, Barack Obama e o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva encontraram-se às margens de uma reunião do G8+5, em L'Aquila (Itália).


Depois do encontro, o porta-voz de Obama, então Robert Gibbs me disse que, entre outros assuntos, haviam conversado sobre o Irã. Obama sugeriu a Lula, que estava para receber o presidente Ahmedinejad em Brasília, que insistisse na necessidade de o Irã limitar seu programa nuclear a usos pacíficos.
O presidente norte-americano teria até sugerido que Lula jogasse na conversa o exemplo brasileiro, cuja Constituição impõe o limite proposto para o Irã.
Um ano depois, Lula devolveu a visita a Ahmedinejad, mas, antes, recebeu carta de Obama em que este listava os pontos essenciais para um acordo com o Irã, que estava sendo negociado pelo Brasil e pela Turquia.
O acordo foi fechado praticamente nos termos desejados pelos norte-americanos. Inclusive - e principalmente - no ponto em que previa a entrega de 1.200 quilos de urânio pobremente enriquecido para a Rússia ou a França para enriquecimento a um nível que só serve mesmo para finalidades pacíficas (médicas).
Essa quantidade era considerada "fundamental" na carta de Obama.
Apareceu no acordo, mas, assim mesmo, foi descartado pelos Estados Unidos, que preferiram propor sanções ao Conselho de Segurança, afinal aprovadas, até com apoio de China e Rússia, que deixaram seu parceiro dos BRICS falando sozinho.
O que mudou entre as conversas Obama/Lula e a carta do norte-americano, só Washington pode explicar, mas minha impressão é a de que os Estados Unidos trocaram o "engajamento" a que Obama se propôs logo após a posse pelo confronto. E não avisaram Lula.
Hoje, está claro que não se avançou absolutamente nada nem no confronto nem na negociação. Fica, pois, a pergunta que não terá resposta: o mundo não estaria melhor se se tivesse, à época,
dado uma chance para o acordo Brasil/Turquia/Irã prosperar?
  

Dilma, Obama e Irán

Por: | 30 de marzo de 2012

En sus relaciones con EE UU, Brasil puede tropezar una segunda vez en una piedra llamada Irán. Y en ambas tiene razón.

El tropiezo que está por venir tiene este formato: día 10, Dilma Rousseff irá a los Estados Unidos para su primera visita oficial (ya estuvo antes, pero en eventos de la ONU). Pese a ello, tuvo la sinceridad de criticar duramente la política de Washington respecto a Irán. Y lo hizo dos semanas antes, en Nueva Dehli, durante la rueda de prensa para los periodistas brasileños que estábamos cubriendo la cuarta cúpula de los BRICS (Brasil, Rusia, Índia, China y Sudáfrica).

"Para Brasil, las medidas de bloqueo de compras a Irán parecen extremamente peligrosas, aunque no tengamos relaciones comerciales con este país", disparó Dilma (relaciones existen, pero son inferiores al 1% de las exportaciones brasileñas y aún menos para la importación).

Con el apoyo europeo, Estados Unidos está presionando los países que compran petroleo iraní para que dejen de hacerlo, lo equivalente a cortar la línea de vida del país de los aiatolás.

Rusia presionó para que el documento final de los BRICS denunciara la presión de EE UU, pero no funcionó.

Aunque Brasil no compre, o compre poco, Dilma se mostró comprensiva con "otros países que necesitan comprarlo". No mencionó nombres, pero es obvio que se refería a dos de los BRICS: China, que importa de Irán lo equivalente al 22% de sus necesidades, e India, que compra del país 13% del petroleo que consume.

El texto enfatizó que es necesario evitar que la situación respecto a Irán "crezca en dirección a un conflicto". Preocupación idéntica a la que Dilma expresaría en su rueda de prensa: "Que las partes bajen el nivel de retórica y se entiendan".

Tanto el comunicado como el discurso de la presidenta hacen alusión a las repetidas insinuaciones de Israel, que dice que es necesario atacar a Irán antes que su programa nuclear para el desarrollo de la bomba atómica alcance un punto irreversible. También hace alusión a la frase del presidente Barack Obama sobre el contencioso iraní: "todas las opciones están sobre la mesa".

"Todas las opciones" significa incluir una opción militar, obviamente.

Y ¿por qué digo que Dilma está cierta en tropezar con la piedra-Irán? Porque, según ella, imponer sanciones, a Irán o a cualquier país, solo vale si es "en el ámbito de la ONU y del derecho internacional" y no por "decisiones de países".

Traducción: parte de las sanciones a Irán fueron establecidas en el ámbito de la ONU, sin que Rusia y China lo vetaran, aunque tuviesen el poder para hacerlo. Pero después, EE UU y Unión Europea ampliaron el listado de castigos y, además, presionaron a otros países para que no comprasen petroleo iraní.

Obviamente, respetar la legalidad internacional es una condición sine qua non para aceptar acciones militares o de cualquier naturaleza contra cualquier país.

Dilma exige aún que "en lugar de la retorica agresiva, hay que reconocer el derecho de los países de utilizar la energía nuclear para fines pacíficos, así como hacemos nosotros".

EE UU y Europa no denegan este derecho iraní, pero no creen que su programa nuclear tenga solamente fines pacíficos.

El comunidado de los BRICS también reiteran este derecho, pero introduce un matiz que Dilma no dijo: que el derecho iraní sea "consistente respecto a sus obligaciones internacionales". Traducción: Irán necesita cooperar con la Agencia Internacional de Energía y permitir inspecciones que eliminen cualquier duda sobre el carácter del programa.

Dicho esto, paso al primer tropiezo de Brasil con Irán y EE UU. En 2009, Barack Obama y el entonces presidente Luiz Inácio Lula da Silva, se encontraron fuera de la reunión del G8+5, en L'Aquila, Italia. Después del encuentro, Robert Gibbs, el portavoz de Obama, dijo que habían hablado sobre Irán, entre otros asuntos. Obama sugirió a Lula que insistiese que Irán limitara su programa nuclear a usos pacíficos. En aquél momento, Lula estaba a punto de recibir el presidente Ahmedinejad en Brasilia.

El presidente estadounidense habría sugerido que durante el encuentro, Lula podría utilizar el ejemplo brasileño (donde la Constitución impone el límite propuesto a Irán).

Un año después, Lula devolvió la visita a Ahmedinejad. Pero antes recibió una carta de Obama, en la que este ponía los puntos esenciales para un acuerdo con Irán, que Brasil y Turquía estaban negociando.

El acuerdo se hizo en los términos deseados por los estadounidenses. Principalmente en el punto que preveía la entrega de 1.200 kilos de uranio pobremente enriquecido para Rusia o Francia. Este componente químico, a estos niveles, solo sirve para finalidades pacíficas, o sea, médicas.

Fijar esta cantidad era "fundamental" en la carta de Obama.

Finalmente, esto apareció en el acuerdo y aún así, EE UU lo descartó. Preferieron proponer sanciones al Consejo de Seguridad, que fueron aprobadas con el apoyo de China y Rusia, que dejaron su compañero de los BRICS hablando solo.

Solo Washington puede explicar lo que cambió entre las conversaciones Obama/Lula y la carta del estadounidense. Pero tengo la impresión de que EE UU cambió la propuesta inicial del gobierno de Obama, es decir, el "compromiso" por el enfrentamiento. Y no avisaron a Lula.

Hoy está claro que no se avanzó absolutamente nada, ni en el enfrentamiento, ni en la negociación. Queda la pregunta que no tendrá respuesta: ¿El mundo no estaría mejor si se hubiese dado la oportunidad para que el acuerdo Brasil/Turquía/Irán prosperara?

Traducción: Beatriz Borges

O eterno candidato

Por: | 26 de marzo de 2012



Um dia de 2003, o jornalista Ricardo Kotscho, assessor de imprensa de Luiz Inácio Lula da Silva, perguntou ao chefe, que recém tomara posse como presidente da República: "Lula, o que você gostaria de ser se não fosse presidente?".
"Candidato", respondeu Lula, sem parar nem mesmo um segundo para pensar.
Desconfio que José Serra, ex-quase-tudo na política e na administração pública brasileiras, daria uma resposta inversa: preferiria ser presidente a ser candidato. Até porque seu amigo Fernando Henrique Cardoso chegou a brincar, durante a campanha eleitoral presidencial em que Serra foi derrotado por Lula (2002), que seu amigo Serra seria o melhor presidente mas era o pior candidato.
Serra, de fato, é um personagem atormentado, mas que as circunstâncias políticas e o desejo de ser presidente transformaram em eterno candidato. Já disputou - e ganhou - eleições para todos os cargos possíveis: prefeito de São Paulo, governador do Estado, deputado federal, senador.
Só não ganhou a Presidência.
No domingo, venceu mais uma eleição, a prévia para escolher o candidato de seu partido, o PSDB (Partido da Social Democracia Brasileira), para disputar a Prefeitura (outra vez), o terceiro maior orçamento da República, após o do governo federal e o do Estado de São Paulo.


É uma vitória com sabor amargo. Em tese, afasta Serra de seu sonho, que é a Presidência.
Afinal, renunciou uma vez à Prefeitura, para candidatar-se ao governo do Estado, apesar de ter assinado documento comprometendo-se a cumprir o mandato inteirinho. É cobrado até hoje pelos adversários, ainda mais que afirmou, faz pouco, que o que assinara era um "papelzinho" sem valor legal.
De fato, o papel foi proposto por Gilberto Dimenstein, jornalista da "Folha de S. Paulo" durante sabatina promovida pelo jornal. Não tem realmente valor legal, mas não deixa de ser moralmente recriminável rasgar um compromisso publicamente assumido.
Renunciar de novo à Prefeitura para candidatar-se à Presidência em 2014 seria um tremendo ônus, ainda mais que o partido já tem um pré-candidato praticamente lançado, o senador Aécio Neves.
Deixar um cargo eletivo para tentar pela terceira vez ser presidente não é algo que passe facilmente pelo partido. Ainda mais quando o cenário para 2014 indica que o principal adversário do candidato do PSDB será alguém que já derrotou Serra, ou Dilma Rousseff ou Luiz Inácio Lula da Silva.
O que significa dizer que a vitória de Serra nas prévias acaba sendo, indiretamente, o primeiro movimento no xadrez de 2014: tira um eterno candidato (Serra) para empurrar um novato, Aécio Neves, o primeiro nome com chances de chegar à Presidência que não fez carreira política no período da ditadura militar, ao contrário de Serra, Lula e Dilma.
Foi eleito deputado federal, pela primeira vez, em 1986, um ano depois do fim do regime militar.
Posto de outra forma: está havendo o início de uma troca de gerações na política brasileira, na qual tende a diminuir o espaço para eternos candidatos.

El eterno candidato

Por: | 26 de marzo de 2012

El asesor de prensa de Luiz Inácio Lula da Silva, el periodista Ricardo Kotscho, preguntó a su jefe un día de 2003: “Lula, ¿qué te gustaría ser si no fueras presidente?” “Candidato”, contestó el recién presidente de la República, sin parar ni un segundo para pensarlo.

Desconfío que José Serra, excasitodo en la política y en la administración pública brasileñas, daría una respuesta inversa: preferiría ser presidente a ser candidato. Su amigo y expresidente, Fernando Henrique Cardoso, bromeó que Serra sería el mejor presidente, pero era el peor candidato durante la campaña presidencial de 2002, en la que Lula ganó.

Serra es, de hecho, un personaje atormentado. Pero las circunstancias políticas y el deseo de ser presidente le trasformaron en un eterno candidato. Él ya disputó y ganó las elecciones para todos los cargos posibles: alcalde de São Paulo, gobernador del Estado de São Paulo, diputado federal y senador. Solo no ganó la presidencia. El domingo venció las primarias de su partido, el  Partido de la Social Democracia Brasileña (PSDB), para concurrir a la alcaldía nuevamente. La alcaldía es el tercer presupuesto de la República, después del gobierno federal y del Estado de São Paulo.

Es una vitoria que sabe amarga. En teoría, le aparta a Serra de su sueño, la presidencia. Al final, renunció a la alcaldía una vez para presentarse al gobierno del Estado de de São Paulo, pese a haber firmado un documento donde se comprometía a concluir la legislatura, de cuatro años. Sus adversarios hasta hoy lo cobran. Encima, hace poco declaró que lo que había firmado era un “papelito” sin valor legal.

De hecho, el papelito fue propuesto por Gilberto Dimenstein, periodista de Folha de S. Paulo, durante un debate promovido por el periódico. Realmente no tiene valor legal, pero no deja de ser moralmente reprochable romper un compromiso asumido públicamente.

Renunciar otra vez a la alcaldía para ser candidato a la presidencia en 2014 sería una tremenda responsabilidad. Además porque el partido ya tiene un precandidato, el senador Aécio Neves.

Dejar un puesto público para intentar por tercera vez ser presidente no es algo fácilmente aceptado por el partido. Principalmente cuando el escenario previsto para 2014 indica que el adversario del candidato del PSDB será alguien que ya le venció, sea Dilma Rousseff o Luiz Inácio Lula da Silva.

Lo que significa que la victoria de Serra en las primarias fue, indirectamente, el primer movimiento de ajedrez de 2014. Quitó Serra, el eterno candidato, para empujar al principiante, Aécio Neves. Neves es el primer nombre con posibilidades de llegar a la presidencia que no haya sido político durante la dictadura militar, lo contrario de Serra, Lula y Dilma.

Se eligió diputado federal por primera vez en 1986, un año después del final del régimen militar. Dicho de otro modo, empieza un cambio de generaciones en la política brasileña, en el que se reduce el espacio para eternos candidatos.

Traducción: Beatriz Borges

BRICS, modo de usar

Por: | 23 de marzo de 2012



O BRICS não existe, embora faça, na semana que vem, sua quarta reunião de cúpula. Contradição em termos? Jogo de palavras? Brincadeira? Nada disso. Existem, sim, Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul (que fornece o "S", como South Africa ou Sudáfrica).
Mas não existe um grupo que coordene suas ações, tenha prioridades comuns e atue em conjunto, qualquer que seja o tema que suba ao topo da agenda global.
Essa dificuldade de coordenação é admitida até por Jim O'Neill, o economista-chefe da firma financeira Goldman Sachs que inventou a sigla, já faz 11 anos.

"Esses quatro países compartilham muito pouco: dois são democracias, dois não; dois são produtores de commodities, dois não; Brasil e Rússia têm nível semelhante de riqueza, a Índia está muito atrás", disse ele, em entrevista recente ao jornal "Folha de S. Paulo".
Completou: "O resultado é que têm prioridades muito diferentes".
É bom esclarecer que o homem da Goldman Sachs fala em quatro, em vez de cinco países, porque não concorda com a inclusão da África do Sul, incorporada apenas no ano passado.
"Eles não conseguiram nem concordar em relação a um nome para liderar o FMI, quando Dominique Strauss-Kahn saiu", ironiza O'Neill.
Aliás, até para o Banco Mundial, instituição destinada a financiar exatamente os países em desenvolvimento, dos quais os BRICS se julgam os campeões, não há ainda um candidato BRICS para substituir Robert Zoellick, que acaba de renunciar.
Os BRICS cobram, desde sua primeira reunião de cúpula (20099), o fim do sistema dominante nas grandes instituções financeiras globais (Fundo Monetário Internacional e Banco Mundial), pelo qual a Europa indica o chefe do Fundo e, os Estados Unidos, o presidente do Banco Mundial.
Mas aceitaram que uma europeia (Christine Lagarde, então ministra de Economia da França) assumisse o lugar de seu compatriota Strauss-Khan, dinamitado por um escândalo sexual. Não apoiaram o único candidato do mundo emergente que se lançou à disputa, o mexicano Agustín Carstens, presidente do Banco Central.
Agora, para o Banco Mundial, há dois candidatos dos emergentes postos à mesa, mas não são dos BRICS nem por eles foram lançados. Um é o colombiano José Antonio Ocampo, ex-ministro de Finanças, e, a outra, é a nigeriana Ngozi Okonjo-Iweala, ministra de Finanças, sugerida pela África e que tem o apoio, por enquanto, de apenas um dos BRICS (África do Sul, obviamente).

O intrigante nessa omissão é que ela se dá no que é o coração do projeto BRICS, assim descrito por Nitin Desai, ex-subsecretário-geral das Nações Unidas:
"O projeto BRICS é, pura e simplesmente, desafiar a posição privilegiada da comunidade do Atlântico Norte e de seu aliado oriental, o Japão, no gerenciamento da interdependência global".
Desai lista, um por um, os outros campos em que os BRICS não têm nem terão, pelo menos a curto prazo, interesses comuns, a saber:
1 - "Não pode ser no campo do comércio, na medida em que os interesses próprios são diferentes. Brasil e Rússia são grandes exportadores de commodities, China e Índia, grandes importadores".
2 - "Todos os BRICS mantêm grandes reservas de moeda estrangeira e receberam substanciais fluxos de investimento externo. Mas eles também acreditam fortemente em manter a autonomia nacional no regime político sobre investimento estrangeiro".


3 - "As negociações globais sobre mudança climática são uma nova área para agrupamentos de países. Mas, aqui, os BRICS não estão sempre na mesma página". Desai explica que a Rússia aceitou obrigações para reduzir a emissão de gases do efeito estufa, embora obrigações diluídas, ao passo que os outros quatro BRICS "estão sob pressão, como economias de rápido crescimento, para aceitar obrigações, mas têm interesses divergentes em temas como florestas e energia nuclear".

4 - "Rússia e China são potências nucleares estabelecidas com substancial capacidade militar e membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas", o coração do sistema ONU.
Já os outros três reclamam um lugar permanente no CS, reivindicação não encampada pela China.
Reforça Oliver Stuenkel, professor de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas, de São Paulo: "Enquanto Brasil, Índia e África do Sul se empenham por uma significativa redistribuição de poder institucionall, China e Rússia são potências do status-quo, relutantes em mudar um sistema que lhes serviu bem nas décadas passadas".
Mesmo quando não está em jogo a governança global, os BRICS têm dificuldades em se entender.

O noticiário procedente da Índia, a anfitrião da quarta cúpula, diz que nela será criado um Banco de Desenvolvimento dos BRICS, que rivalizaria com o Banco Mundial no financiamento de projetos de cada um dos países-membros.
Não é bem assim, avisa a embaixadora Maria Edileuza Fontenele, subsecretária de Política da chancelaria brasileira. O que será criado é apenas um grupo de trabalho para estudar a possibilidade de criar o banco dos BRICS, tarefa que "tomará tempo", completa a diplomata.
Antes mesmo de chegar a concretizar o banco, já surgiram divergências: a Índia propõe uma presidência rotativa, a China quer que o comando seja seu, como a maior economia do bloco-que-não-é-bloco. O Brasil teme que a nova instituição sirva apenas como instrumento de política econômica para os chineses, o que não lhe convém.
Além disso, aponta a diferença de tamanho entre os bancos públicos de desenvolvimento dos cinco BRICS para ressaltar a dificuldade em torno do tema.
Tudo somado, tem-se que os BRICS são tremendamente importantes: em 2011, representavam 25% da economia global (de acordo com a Paridade do Poder de Compra das moedas nacionais), 30% da área terrestre do planeta, 45% da população mundial e, nos dez anos mais recentes, cresceram 4,2 vezes, enquanto o mundo rico crescia apenas 61%.
Mas, de novo, se está falando de Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, não de um grupo. Os números seriam os mesmos se O'Neill, espertamente, não tivesse inventado a sigla para atrair investidores para novos focos.

Os governos gostaram da invenção, porque precisam de investidores, e a oficializaram, o que só prova a tremenda força do sistema financeiro no mundo contemporâneo: um mago de Wall Street inventa algo que acaba incorporado até pelos governos que querem desafiar a hegemonia do capitalismo que tem Wall Street como sua vitrina mais exuberante.

Mais sobre BRICS no sítio da Universidade Toronto: http://www.brics.utoronto.ca/ .

BRICS, instrucciones de uso

Por: | 23 de marzo de 2012

Los BRICS no existen, aunque tendrán su cuarta reunión la próxima semana. ¿Contradicción de términos?  ¿Juegos de palabras? ¿Broma? Nada de eso. Sí que existen Brasil, Rusia, India, China y Sudáfrica. Pero no existe un grupo que coordine sus acciones, tenga prioridades comunes y actúe conjuntamente sobre cualquier tema que esté en la agenda global.

El inventor de la sigla y economista-jefe de la financiera Goldman Sachs, Jim O’Neill, admite esta dificultad de coordinación.  “Estos cuatro países comparten muy poco: dos son democracias, dos no lo son; dos son productores de materias primas, dos no lo son; Brasil y Rusia tienen niveles de riqueza semejantes, India está muy por detrás”, dijo O’Neill en una reciente entrevista al periódico Folha de S. Paulo. Y completó: “El resultado es que tienen prioridades muy distintas”. Aclaro que el hombre de Goldman Sachs habla de cuatro en lugar de cinco países porque no está de acuerdo con la inclusión de Sudáfrica, que se incorporó al grupo el año pasado.

“Ellos ni han logrado ponerse de acuerdo respecto a un nombre para liderar el FMI, cuando Dominique Strauss-Kahn salió”, ironiza O’Neill. Los BRICS tampoco tienen un candidato para sustituir a Robert Zoellick, que acaba de renunciar a la presidencia del Banco Mundial, institución que financia a los que se consideran unos campeones entre los países en desarrollo.

Desde su primera reunión en 2009, los BRICS demandan el fin del sistema dominante en el FMI y el Banco Mundial, ya que los presidentes de ambas instituciones son indicaciones de Europa y EE UU, respectivamente. Pero aceptaron que una europea, Christine Lagarde (entonces ministra de Economía de Francia) ocupase el lugar de Strauss-Khan, su compatriota dinamitado por un escándalo sexual. Los BRICS no apoyaron el único candidato del mundo emergente que se lanzó a la disputa, el mexicano Agustín Carstens, presidente del Banco Central.

Hay dos candidatos para ocupar la presidencia del Banco Mundial, pero que no son de los BRICS y tampoco fueron lanzados por ellos: el colombiano José Antonio Ocampo, exministro de Finanzas, y la nigeriana Ngozi Okonjo-Iweala, ministra de Finanzas. La nigeriana, hasta el momento, tiene el apoyo de uno de los BRICS, Sudáfrica, obviamente.

Lo intrigante en esta omisión es que se da en el corazón del proyecto BRICS, así descrito por el exsubsecretario general de la ONU, Nitin Desai: “Sencillamente, el proyecto BRICS trata de desafiar la posición privilegiada que la comunidad del Atlántico Norte y Japón tienen en el gerenciamiento de la interdependencia global”.

Desai también listó los otros campos donde los BRICS no tienen intereses comunes, por lo menos a corto plazo:

  1. “Respecto al comercio, los intereses propios son diferentes. Brasil y Rusia son grandes exportadores de materia prima, China e India, grandes importadores”.
  2. “Todos los BRICS tienen grandes reservas en moneda extranjera y recibieron sustanciales flujos de inversión externos. Pero ellos también creen fuertemente en mantener la autonomía nacional de sus regímenes políticos frente a las inversiones extranjeras”
  3. “Los países se agrupan cuando hay negociaciones globales sobre el cambio climático. Los BRICS tampoco están en la misma página en este aspecto”. Desai explica que Rusia aceptó las metas, aunque difusas, para reducir la emisión de los gases que provocan el calentamiento global. Los otros cuatro BRICS “son economías de rápido crecimiento y están bajo presión para aceptar las metas, pero tienen intereses divergentes en algunos temas, como las forestas y la energía nuclear”.
  4. “Rusia y China son miembros permanentes del Consejo de Seguridad de ONU y potencias nucleares con capacidad militar sustancial”, es decir, el corazón del sistema ONU. Ya los otros reclaman un lugar permanente en el Consejo de Seguridad, una reivindicación que China no comparte.

El profesor de Relaciones Internacionales de la Fundación Getúlio Vargas, Oliver Stuenkel, lo refuerza: “Mientras Brasil, India y Sudáfrica se esfuerzan para que el poder institucional sea redistribuido, China y Rusia, potencias del status quo, se resisten a cambiar un sistema que les sirvió décadas pasadas”.

Los BRICS tienen dificultades para entenderse incluso cuando la gobernanza global no está en juego. Una noticia que vino del país anfitrión, India, dice que en el cuarto encuentro se creará un Banco de Desarrollo de los BRICS, que sería el rival del Banco Mundial para financiar los proyectos de cada uno de los países miembros.

La embajadora Maria Edileuza Fontenele, subsecretaria de Política del ministerio de Relaciones Exteriores de Brasil, avisa que no es exactamente así. Se creará un grupo de trabajo para estudiar la posibilidad de crear el banco de los BRICS, tarea que “llevará tiempo”, concluye la diplomática.

Incluso antes de concretizar el banco, las divergencias brotaron: India propuso una presidencia rotativa, China quiere comandar porque es la economía más grande del bloque-que-no-es-bloque, Brasil teme que la nueva institución solamente sirva de instrumento de política económica para los chinos, lo que no le conviene. Además, Brasil apunta la diferencia de tamaño entre los bancos públicos de desarrollo de los cinco BRICS para resaltar la dificultad alrededor del tema.

Los BRICS son tremendamente importantes: en 2011 representaban el 25% de la economía global (considerando el poder de compra de las monedas nacionales), el 30% del suelo del planeta, el 45% de la población mundial y crecieron 4,2 veces en los últimos 10 años, mientras el mundo rico creció solamente 61%.

Pero, otra vez, no se habla de un grupo sino de Brasil, Rusia, India, China y Sudáfrica. Los números serían los mismos si O’Neill no hubiese inventado la sigla para atraer a los inversores. A los gobiernos les gustó el invento porque necesitan inversores, por esto concretaron la idea del bloque. Esto prueba la fuerza del sistema financiero en el mundo contemporáneo: un mago de la vitrina más exuberante del capitalismo, Wall Street, inventa algo que aquellos gobiernos incorporan. Los mismos gobiernos que quieren desafiar la hegemonía del capitalismo.

Más sobre los BRICS en la página web de la Universidad de Toronto.

Traducción: Beatriz Borges

Crise em uma só avenida

Por: | 19 de marzo de 2012



A formidável confusão na base parlamentar de sustentação do governo Dilma Rousseff pode dar a impressão de que há uma crise - ou, ao menos, uma mini-crise - política no Brasil.
Nada mais enganoso. A crise, se é que se pode usar essa palavra tão forte para qualificar a pantomima, não ultrapassa os limites da Esplanada dos Ministérios, a grande avenida de Brasília em que ficam quase todos os Ministérios e que desemboca na praça dos Três Poderes, na qual o gênio de Oscar Niemeyer plantou o Palácio do Planalto, sede do Executivo, o edifício do Congresso Nacional e o do Supremo Tribunal Federal.
Indicativa da indigência da política brasileira, a crise não se dá em torno de programas de governo, ideologias em choque, propostas relevantes que levem a divergências entre os muitos partidos que formam a chamada base governista. Nada disso.
Tudo gira em torno de apetite pelos cargos públicos e pela distribuição das verbas federais. Enfim, o que o jargão político-jornalístico brasileiro chama de fisiologismo. A esmagadora maioria dos partidos brasileiros só sobrevive como intermediário de benesses proporcionadas pelo poder, seja o federal, os estaduais e os municipais.
A suposta crise nem remotamente afeta a governabilidade. Até porque, o quadro anexo mostra que, na agenda tanto da Câmara dos Deputados como do Senado, só há um projeto realmente relevante, o do Código Florestal, destinado, em tese, a defender o meio ambiente. Mesmo esse já foi tão apropriado pela bancada do agronegócio que não provocará mudanças realmente decisivas no modo de operar dos agricultores nem na defesa ambiental.



A polêmica, aliás, gira mais em torno da Lei Geral da Copa, a que fixa as regras para a Copa do Mundo de futebol que o Brasil organizará em 2014. Foi o atraso na aprovação dessa legislação que levou o secretário-geral da FIFA, Jérôme Valcke, a dizer que o Brasil merecia um pontapé no traseiro, motivo de uma polêmica mais engraçada do que séria.
Mesmo no caso da Lei da Copa, o ponto que está provocando mais dificuldades é a autorização ou não para a venda de bebidas durante o torneio. A legislação brasileira veta. A FIFA exige a autorização, porque um dos patrocinadores do Mundial é uma marca de cerveja.
Só mesmo abstêmios fanáticos ou fundamentalistas da cerveja poderão dizer que a autorização ou veto alterará os destinos da pátria.
A crise nem mexe na popularidade da presidente, o que é fácil de explicar: faz muito tempo que o mundo político brasileiro gira em órbita própria, que nada tem a ver com o cotidiano das pessooas (salvo, claro, do grupo que gravita em torno da política e dos políticos).
Por isso, o ritmo de vida do país segue seu rumo sem se importar minimamente com o que fazem os políticos. A política econômica, para ficar no exemplo em geral mais relevante, não passa pelo Congresso ou pelos partidos políticos. Nem mesmo pelo PT, o partido da presidente. Aliás, desde o primeiro período Lula (2003/2006), a política econômica contraria alguns dos princípios pelos quais o PT se bateu nos 20 anos anteriores à sua chegada ao poder, sem que esse fato arranque mais do que muxoxos débeis dos petistas mais ideológicos - e que são cada vez menos.
O que poderia, sim, mexer eventualmente na popularidade de Dilma é uma retração econômica que levasse a um aumento do desemprego. Mas nem uma nem o outro estão à vista. É verdade que o crescimento do ano passado (2,7%) foi pífio, mas, de todo modo, foi crescimento.
É também verdade que a geração de empregos em fevereiro (156 mil) foi 56% inferior à de fevereiro de 2011, mas permanece o fato de que empregos estão sendo gerados e não decapitados, ao contrário do que acontece em boa parte da Europa.
Tudo somado, explica-se facilmente porque a tal crise se limita a uma avenida de uma única cidade, que já foi chamada de "ilha da fantasia" pelo distanciamento entre os políticos que a habitam e o resto do país.

Crisis, solo en una avenida

Por: | 19 de marzo de 2012

La formidable confusión en la base parlamentaria que sostiene el gobierno de Dilma Rousseff puede haber dado la impresión de que haya una crisis política en Brasil. O, al menos, una minicrisis. Nada más equivocado. La crisis no ultrapasa los límites de la Esplanada de los Ministerios, la gran avenida de Brasilia donde están casi todos los Ministerios y que termina en la plaza de los Tres Poderes (donde están el Palacio del Planalto, sede del Ejecutivo, el Edificio del Congreso Nacional y el Tribunal Supremo Federal, creados por el genio Oscar Niemeyer). Quizás crisis sea una palabra muy fuerte para calificar esta pantomima.

El motivo de la crisis revela la pobreza de la política brasileña. La crisis no fue provocada por los programas de gobierno, tampoco por un choque de ideologías o divergencias entre propuestas relevantes de los muchos partidos que forman la llamada “base gubernista”. Nada de eso. Todo gira alrededor de la distribución del presupuesto del Estado y del apetito de los partidos por ocupar puestos públicos. Lo que la jerga político-periodística llama fisiologismo. La abrumadora mayoría de los partidos brasileños sobreviven gracias a intermediar favores, proporcionados por el poder federal, estadual o municipal.

La supuesta crisis no afecta ni remotamente a la gobernabilidad. El cuadro anexo enseña que solo hay un proyecto relevante en las agendas de la Cámara de los Diputados y del Senado: el Código Forestal, en teoría, destinado a defender el medio ambiente. Los parlamentarios del agronegócio ya se apropiaron del código, lo que garantiza que este no provocará cambios decisivos sobre la actuación de agricultores y tampoco sobre la defensa ambiental.

Pero la principal polémica gira alrededor de la Ley General de la Copa, que fija las reglas para la Copa del Mundo de fútbol que Brasil organizará en 2014. El secretario general de FIFA, Jérôme Valcke, dijo que Brasil merecía una patada en el culo justamente por el retraso en la aprobación de esta ley, lo que provocó una polémica más graciosa que seria.

Incluso en el caso de la Ley de la Copa, el punto que provoca más dificultades es la autorización para la venta de bebidas alcohólicas durante el torneo. La legislación brasileña lo prohíbe, pero FIFA exige la autorización, ya que uno de los patrocinadores del Mundial es una marca de cerveza. Solo los abstemios fanáticos o fundamentalistas de la cerveza podrían decir que la aprobación o veto de esta ley cambiaría los destinos de la patria.

La crisis no altera la popularidad de la presidenta, lo que es fácil de explicar: hace mucho que el mundo político brasileño gira en órbita propia, que nada tiene en común con la rutina de las personas. Excepto, por supuesto, del grupo que gravita alrededor de la política y de los políticos. Por esta razón, el ritmo de vida del país sigue su rumbo, sin importarse mínimamente con lo que los políticos hacen. Un ejemplo relevante: la política económica no pasa por el Congreso, por los partidos políticos o por el partido de la presidenta, el PT. Desde el primer período Lula (2003/2006) la política económica  va en contra los principios por los que PT luchó durante los 20 años anteriores a su llegada al poder. Y esto no provocó la más mínima reacción, ni en los correligionarios más ideológicos del PT, que también son cada vez menos.

Lo que sí podría tocar la popularidad de Dilma es una retracción económica que aumentase el paro. Pero no hay previsión de que estas suposiciones ocurran. Es verdad que el crecimiento del año pasado (2,7%) fue despreciable. Pero fue crecimiento.

Es verdad también que la creación de empleos en febrero, 156.000, fue 56% menor que la de febrero de 2011. Aunque los empleos están siendo creados y no decapitados, como acontece en gran parte de Europa.

Todos estos argumentos explican fácilmente porqué la dicha crisis se limita a una sola avenida de una única ciudad. La distancia entre los políticos que habitan esta zona y el resto del país ya le dio el apodo de “isla de la fantasía”.

Traducción: Beatriz Borges

Mais espantoso que emergente

Por: | 15 de marzo de 2012


O ministro José Toffoli e a Constituição que vale-não-vale

O Brasil, essa formidável potência emergente, pode ser um gigante acordando na economia mas é um espantoso anão institucionalmente.
O que aconteceu na semana passada nesse terreno foi uma verdadeira comédia jurídica, digna de república bananeira.
Fatos: na quarta-feira, o STF (Supremo Tribunal Federal) decidiu, por sete votos contra dois, que era inconstitucional a criação do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade. Motivo: a Medida Provisória (forma de o Executivo atropelar o Congresso, equivalente aos decretos-lei do tempo da ditadura) havia sido aprovada pelo plenário do Congresso sem antes passar por uma Comissão Especial Mista (Câmara mais Senado), tal como determina a Constituição.
No dia seguinte, o Supremo voltou atrás e decidiu, também por folgada maioria, que não havia inconstitucionalidade. Motivo do recuo: os ministros do STF foram advertidos de que havia 460 outras leis igualmente inconstitucionais, porque derivadas de Medidas Provisórias que tampouco haviam passado pelo crivo de uma Comissão Mista Especial.

Seria um óbvio caos institucional, até porque, entre as MPs transformadas em lei por meio de um rito inconstitucional, havia, por exemplo, a do salário-mínimo e a do Bolsa-Família. Ou seja, se o STF mantivesse a declaração de inconstitucionalidade, um espírito de porco certamente acudiria ao tribunal supremo para obrigar quem recebeu um salário-mínimo ou uma bolsa-família a devolver o dinheiro.
O Supremo adotou então um pragmatismo de república bananeira: um item da Constituição não precisa ser aplicado de 2001 - quando foi introduzida a exigência de comissão mista - até 2012, mas volta a valer a partir de agora.
Quer dizer, volta a valer se os congressistas acharem que vale o que está na Constituição, o que o então líder do governo, Cândido Vaccarezza, declarou ser de inviável aplicação. 
Vaccarezza foi destituído do cargo dias depois, mas não porque violou o respeito à Constituição; perdeu o cargo em uma guerrinha de facções no seu partido, o PT, em torno do comportamento do governo Dilma Rousseff, também do PT. É um outro aspecto do baixo nível das instituições brasileiras porque não há divergências programáticas ou ideológicas em jogo. Apenas disputa por cargos e por influência.
A debilidade institucional exposta cruamente nos dois julgamentos sucessivos do Supremo é tão forte que não houve escândalo com o recuo em 24 horas e com a aceitação de uma evidente inconstitucionalidade. Houve conformismo e aceitação ante a evidência de que obedecer à Constituição, como é de regra no mundo civilizado, criaria tal tumulto que é melhor fazer de conta que um pedaço não vale.
Não me pergunte, por favor, porque ninguém tratou de corrigir o problema antes de que ele chegasse ao Supremo ou, pelo menos, durante a tramitação do caso do Instituto Chico Mendes, que durou quatro anos. Os políticos brasileiros não têm tempo para tratar de assuntos tão triviais como o respeito à lei.

Más asombroso que emergente

Por: | 15 de marzo de 2012

Pie de foto: El ministro José Toffoli y la Constitución que vale-pero-no-vale.

Esta formidable potencia emergente, Brasil, puede ser un gigante despertando en la economía pero institucionalmente es un asombroso enano.

La semana pasada ocurrió una verdadera comedia jurídica, digna de una república platanera. Los hechos: el Tribunal Supremo decidió que la creación del Instituto Chico Mendes de Conservación de la Biodiversidad era inconstitucional, el pasado miércoles con siete votos contra dos. La razón: la Medida Provisoria fue aprobada por el Congreso sin pasar por la Comisión Especial Mixta (Cámara de Diputados y Senado). La Medida Provisoria se asemeja al decreto ley, de los tiempos de la dictadura, usados por el Ejecutivo para atropellar el Congreso. Y el procedimiento obligatorio, que no se aplicó a esta Medida Provisoria, lo determina la Constitución.

El Tribunal Supremo retrocedió al día siguiente y decidió que no había inconstitucionalidad, por amplia mayoría. Razón del retroceso: los ministros del Tribunal Supremo fueron advertidos que había otras 460 leyes igualmente inconstitucionales, también creadas a través de Medidas Provisorias, y que tampoco habían pasado por el tamiz de una Comisión Mixta Especial.

Sería obviamente un caos institucional. Entre las Medidas Provisorias transformadas en ley por un ritual inconstitucional, había la del sueldo mínimo y la del Bolsa Familia. O sea, si el Supremo mantuviese la declaración de inconstitucionalidad, algún aguafiestas seguramente pediría al Supremo que obligara la devolución del dinero a los que recibieron un sueldo mínimo o la bolsa familia.

Por ello, el Supremo adoptó un pragmatismo de república platanera: el párrafo de la Constitución que indica que las Medidas Provisorias deben pasar por el Congreso y también por la Comisión Especial Mixta no vale de 2001 a 2012. Pero vuelve a valer a partir de ahora. Es decir, vuelve a valer si los congresistas piensan que lo que está en la Constitución vale, lo que Cândido Vaccarezza, el entonces líder del gobierno, declaró inviable.

Vaccarezza fue cesado de su puesto días después. No porque violó el respeto a la Constitución, sino porque perdió su puesto en una guerra de facciones dentro de su propio partido, el PT. Este es otro aspecto del bajo nivel de las instituciones brasileñas: no se discute el programa de gobierno o las diferencias entre ideologías, sino disputas sobre puestos e influencias.

La debilidad institucional se expuso crudamente en ambos juicios del Supremo y es tan fuerte que no hubo escándalo después del retroceso de la decisión y tampoco con la aceptación de una evidente inconstitucionalidad. Obedecer a la Constitución, natural en un mundo civilizado, crearía tal confusión que es mejor pretender que un trozo no vale. Y sobre esto, solo hubo conformidad y aceptación.

Por favor, no me preguntéis por qué nadie intentó corregir el problema antes que este llegase al Supremo o, por lo menos, durante los cuatro años de trámites para la creación del Instituto Chico Mendes. Los políticos brasileños no tienen tiempo para tratar de asuntos tan triviales como el respeto a las leyes.

Traducción: Beatriz Borges

El País

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