Clovis Rossi

O eterno candidato

Por: | 26 de marzo de 2012



Um dia de 2003, o jornalista Ricardo Kotscho, assessor de imprensa de Luiz Inácio Lula da Silva, perguntou ao chefe, que recém tomara posse como presidente da República: "Lula, o que você gostaria de ser se não fosse presidente?".
"Candidato", respondeu Lula, sem parar nem mesmo um segundo para pensar.
Desconfio que José Serra, ex-quase-tudo na política e na administração pública brasileiras, daria uma resposta inversa: preferiria ser presidente a ser candidato. Até porque seu amigo Fernando Henrique Cardoso chegou a brincar, durante a campanha eleitoral presidencial em que Serra foi derrotado por Lula (2002), que seu amigo Serra seria o melhor presidente mas era o pior candidato.
Serra, de fato, é um personagem atormentado, mas que as circunstâncias políticas e o desejo de ser presidente transformaram em eterno candidato. Já disputou - e ganhou - eleições para todos os cargos possíveis: prefeito de São Paulo, governador do Estado, deputado federal, senador.
Só não ganhou a Presidência.
No domingo, venceu mais uma eleição, a prévia para escolher o candidato de seu partido, o PSDB (Partido da Social Democracia Brasileira), para disputar a Prefeitura (outra vez), o terceiro maior orçamento da República, após o do governo federal e o do Estado de São Paulo.


É uma vitória com sabor amargo. Em tese, afasta Serra de seu sonho, que é a Presidência.
Afinal, renunciou uma vez à Prefeitura, para candidatar-se ao governo do Estado, apesar de ter assinado documento comprometendo-se a cumprir o mandato inteirinho. É cobrado até hoje pelos adversários, ainda mais que afirmou, faz pouco, que o que assinara era um "papelzinho" sem valor legal.
De fato, o papel foi proposto por Gilberto Dimenstein, jornalista da "Folha de S. Paulo" durante sabatina promovida pelo jornal. Não tem realmente valor legal, mas não deixa de ser moralmente recriminável rasgar um compromisso publicamente assumido.
Renunciar de novo à Prefeitura para candidatar-se à Presidência em 2014 seria um tremendo ônus, ainda mais que o partido já tem um pré-candidato praticamente lançado, o senador Aécio Neves.
Deixar um cargo eletivo para tentar pela terceira vez ser presidente não é algo que passe facilmente pelo partido. Ainda mais quando o cenário para 2014 indica que o principal adversário do candidato do PSDB será alguém que já derrotou Serra, ou Dilma Rousseff ou Luiz Inácio Lula da Silva.
O que significa dizer que a vitória de Serra nas prévias acaba sendo, indiretamente, o primeiro movimento no xadrez de 2014: tira um eterno candidato (Serra) para empurrar um novato, Aécio Neves, o primeiro nome com chances de chegar à Presidência que não fez carreira política no período da ditadura militar, ao contrário de Serra, Lula e Dilma.
Foi eleito deputado federal, pela primeira vez, em 1986, um ano depois do fim do regime militar.
Posto de outra forma: está havendo o início de uma troca de gerações na política brasileira, na qual tende a diminuir o espaço para eternos candidatos.

Hay 3 Comentarios

Obrigado por compartilhar suas idéias ... Eu vou levá-lo para um artigo no futuro

Bom...
nao sei nao sei...Mais acho que na vida sempre vamos ter uma fatasma que vem asombrar seja do futuro o do pasado...
O melhor e colocar alho no pescoço, para te chupar o sangue.

Serra nunca sera presidente de Brasil.Lula es mucho mas confiable para el gran capital y los oligopolios,ganaron y van a ganar mucho mas con el PT.

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Sobre el autor

Clovis Rossi. 48 años de periodismo, columnista del diario "Folha de S. Paulo" y del portal Folha.com, ya ejerció todas las funciones posibles en el periodismo, de reportero a editor-jefe, ganador de los premios Maria Moors Cabot, de la Universidad Columbia (NY) y de la Fundación Nuevo Periodismo Iberoamericano, dirigida por Gabriel García Márquez, los dos por el conjunto de la obra.

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