Clovis Rossi

Sobre el autor

Clovis Rossi. 48 años de periodismo, columnista del diario "Folha de S. Paulo" y del portal Folha.com, ya ejerció todas las funciones posibles en el periodismo, de reportero a editor-jefe, ganador de los premios Maria Moors Cabot, de la Universidad Columbia (NY) y de la Fundación Nuevo Periodismo Iberoamericano, dirigida por Gabriel García Márquez, los dos por el conjunto de la obra.

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De lavagem cerebral a boa ideia

Por: | 11 de abril de 2012


Houve um tempo, um longo tempo, em que boa parte da esquerda brasileira olhava com desconfiança quem estudasse no exterior, especialmente nos Estados Unidos.A sensação nunca claramente explicitada, apenas insinuada, era a de que o "império", como era chamado o portentoso vizinho ao Norte, promovia uma lavagem cerebral e devolvia os estudantes, mesmo os de pós-graduação, como títeres da ideologia predominante por lá.É significativo que a presidente Dilma Rousseff, nascida politicamente na ala mais radical do combate à ditadura e, por extensão, ao capitalismo tenha arquivado completamente essa mentalidade tola e mergulhado no seu exato oposto: o programa mais acariciado pela presidente chama-se "Ciência sem Fronteiras" e tem como objetivo colocar 100 mil estudantes/pesquisadores brasileiros em universidades do exterior. E os Estados Unidos são naturalmente um alvo chave, como a presidente deixou claro na visita que acaba de concluir a Washington e à duas grifes da academia norte-americana, o MIT e Harvard.Julia Sweig, diretora do Programa América Latina e do Programa Brasil do Council on Foreign Relations, participou de parte das exposições de Dilma e relata assim o que a presidente disse:
"Ela explicou o desafio brasileiro a audiências americanas em Washington, Boston e Cambridge: criar condições para que as classes médias novas e emergentes se tornem produtivas em ramos de valor agregado, dependentes de capital humano bem treinado e educado. Conectar os brasileiros às instituições de pesquisa e educação americanas é essencial para o investimento em capital humano".
Comentário da própria Julia: "Expor os brasileiros à cultura americana de inovação e criatividade também é um componente importante da tarefa, como ela disse. E talvez mais difícil. Será que é possível engarrafar essas qualidades que Dilma cita com tamanha admiração? E será que somos os únicos que as temos e podemos exportar?"
Não se preocupe, Julia, os Estados Unidos não são o único centro de excelência que o programa "Ciência sem Fronteiras" pretende explorar. Na visita à Índia, imediatamente antes de viajar a Washington, Dilma também tratara do assunto com autoridades governamentais e universitárias.



A Índia, como se sabe, é um centro importante de TI (Tecnologia da Informação) e é nessa área que o Brasil pretende que seus estudantes/pesquisadores façam seus estágios.Por enquanto, o programa é incipiente: passados nove meses de seu lançamento, apenas 3% das 100 mil bolsas que são a meta foram implementadas. Outras 11% estão em fase de implementação.
E doutorandos e pesquisadores ainda não foram devidamente convocados porque 80% das 10.979 bolsas em fase de implementação são chamadas de graduação-sanduíche (quando o estudante universitário passa um ano ou seis meses fora do país), de acordo com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.

De todo modo, o programa revela que o Brasil perdeu o medo de encarar o mundo externo, o que é ótimo.
Mas é preciso ter claro que não serão 100 mil ou 200 mil graduandos ou doutores ou pesquisadores que conseguirão mudar o pobre panorama do ensino universitário e da pesquisa no Brasil. O mundo externo é apenas um complemento - útil, excelente - à lição de casa, que precisa ser feita no próprio país.
Mas é saudável que Dilma tenha todo o carinho que vem demonstrando pela inovação e pela agregação de valor ao capital humano brasileiro.

El País

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