Clovis Rossi

De lavagem cerebral a boa ideia

Por: | 11 de abril de 2012


Houve um tempo, um longo tempo, em que boa parte da esquerda brasileira olhava com desconfiança quem estudasse no exterior, especialmente nos Estados Unidos.A sensação nunca claramente explicitada, apenas insinuada, era a de que o "império", como era chamado o portentoso vizinho ao Norte, promovia uma lavagem cerebral e devolvia os estudantes, mesmo os de pós-graduação, como títeres da ideologia predominante por lá.É significativo que a presidente Dilma Rousseff, nascida politicamente na ala mais radical do combate à ditadura e, por extensão, ao capitalismo tenha arquivado completamente essa mentalidade tola e mergulhado no seu exato oposto: o programa mais acariciado pela presidente chama-se "Ciência sem Fronteiras" e tem como objetivo colocar 100 mil estudantes/pesquisadores brasileiros em universidades do exterior. E os Estados Unidos são naturalmente um alvo chave, como a presidente deixou claro na visita que acaba de concluir a Washington e à duas grifes da academia norte-americana, o MIT e Harvard.Julia Sweig, diretora do Programa América Latina e do Programa Brasil do Council on Foreign Relations, participou de parte das exposições de Dilma e relata assim o que a presidente disse:
"Ela explicou o desafio brasileiro a audiências americanas em Washington, Boston e Cambridge: criar condições para que as classes médias novas e emergentes se tornem produtivas em ramos de valor agregado, dependentes de capital humano bem treinado e educado. Conectar os brasileiros às instituições de pesquisa e educação americanas é essencial para o investimento em capital humano".
Comentário da própria Julia: "Expor os brasileiros à cultura americana de inovação e criatividade também é um componente importante da tarefa, como ela disse. E talvez mais difícil. Será que é possível engarrafar essas qualidades que Dilma cita com tamanha admiração? E será que somos os únicos que as temos e podemos exportar?"
Não se preocupe, Julia, os Estados Unidos não são o único centro de excelência que o programa "Ciência sem Fronteiras" pretende explorar. Na visita à Índia, imediatamente antes de viajar a Washington, Dilma também tratara do assunto com autoridades governamentais e universitárias.



A Índia, como se sabe, é um centro importante de TI (Tecnologia da Informação) e é nessa área que o Brasil pretende que seus estudantes/pesquisadores façam seus estágios.Por enquanto, o programa é incipiente: passados nove meses de seu lançamento, apenas 3% das 100 mil bolsas que são a meta foram implementadas. Outras 11% estão em fase de implementação.
E doutorandos e pesquisadores ainda não foram devidamente convocados porque 80% das 10.979 bolsas em fase de implementação são chamadas de graduação-sanduíche (quando o estudante universitário passa um ano ou seis meses fora do país), de acordo com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.

De todo modo, o programa revela que o Brasil perdeu o medo de encarar o mundo externo, o que é ótimo.
Mas é preciso ter claro que não serão 100 mil ou 200 mil graduandos ou doutores ou pesquisadores que conseguirão mudar o pobre panorama do ensino universitário e da pesquisa no Brasil. O mundo externo é apenas um complemento - útil, excelente - à lição de casa, que precisa ser feita no próprio país.
Mas é saudável que Dilma tenha todo o carinho que vem demonstrando pela inovação e pela agregação de valor ao capital humano brasileiro.

Hay 9 Comentarios

Isso é verdade!

Muito bem Dilma, mais vamos ver uma coisa por que só colocarao essas bolas na data de 2015, justamente quando o brasil perde su lideraça de potente país, mais vamos ver no que isso vai dar.

Classificação Fiscal

Por ironia para endireitar o ensino básico como um todo é preciso primeiro consertar o ensino universitário e a profissão de professor.Sem professores bem formados com tempo para preparar as aulas e para fazer reciclagem dos conhecimentos além de um salário decente não há como ter educação que preste! Temos a velha luta entre o real e o possível para superar, Tarso Genro, ministro da Educação, cria um piso mínimo para professores do país mas ao chegar aos combalidos cofres do estado gaúcho descobre q ele mesmo como governador de estado não conseguirá pagá-lo! Não é verdade q o ensino no Brasil não preste, foi com ele q chegamos a condição de 6ª economia do mundo (e não venham com esse papo furado de q só exportamos produtos agrícolas, veja lá quantos PHDs existem na Embrapa e nas equivalentes estaduais, veja a EMATER mineira a produzir azeitonas e azeite de oliva, por exemplo, coisa impossível até pouco tempo atrás, sem falar em trigo, maçãs e outros alimentos de difícil adaptação), o que não há no ensino no Brasil é homogeneidade mas qualidade há e em vários lugares. Veja q no útimo teste PISA, em q o Brasil foi melhor q a Argentina (o q não conta muito pq ela anda meio decadente nesses assunto!) porém os alunos dos CEFETs do governo federal tiveram a mesma nota que os alunos do Japão que ficaram na 8ª posição do PISA, e veja q os japinhas têm quase uns 20% mais de dias/aulas q os brasileiros!. Nas escolas técnicas federais primam por ter salários razoáveis para professores e a sua dedicação exclusiva, boas instalações, um certo grau elevado de exigência em relação ao desempenho dos alunos etc Pelo mesmo em algum lugar público já sabemos o q precisa ser feito, agora só falta o mais difícil q é levar o mesmo padrão para o resto do país. Não sou oficialista ou sequer tenho simpatias partidárias mas estou animado ao ver na minha cidade, Belo Horizonte, a construção ou reformas de escolas com equipamentos q só se via em colégios particulares bem como tb a construção de creches de excelente qualidade, iguais ou melhores q as particulares e a creche como se sabe é a 1ª escola da criança e permite q os país possam trabalhar sem preocupação. Cerca de 30% das escolas municipais da capital mineira já são de tempo integral

Ora a tal desconfiança do passado era cheíssima de razão, não poucos estudantes, professores, militares, diplomatas etc (até mulher de diplomata andou recrutando a irmã de Fidel Castro para a CIA...) foram recrutados, comprados, cooptados, vendidos, alugados, sublocados e q mais termos o intelecto queira usar por setores do governo americanos nos anos 60 tendo em vista o futuro golpe que foi um sucesso tal a quantidade de gente a serviço dos americanos! Nem falar na benemerência cultural bancado pela CIA até com a criação de 'institutos de estudos' etc Dilma conheceu bem os dois lados, nasceu politicamente na ala mais radical justamente pq surgiu no meio do caminho a tal ditadura, na verdade ela levava um vida muito boa como classe média tradicional em Belo Horizonte, estudou em ótimas escolas, aos 18 já estava casada e morava em seu próprio apartamento e frequentava economia na melhor universidade do estado, coisa q só os bem nascidos podiam fazer! Não fosse a ditadura Dilma seria hoje muito provavelmente mais uma anônima e pacata cidadã da capital mineira! Mas tb não foi Dilma q 'arquivou essa mentalidade', Lula já havia recebido o país com os beneficiados por bolsa daqui e do exterior sem reajuste há 10 anos (segundo informou a própria 'grande imprensa'). Não existe coisa mais 'radical' politicamente no mundo do q a China e ela tem a maior quantidade de alunos estrangeiros nas universidade americanas há décadas! No programa 'Ciência sem Fonteiras' das 75 mil bolsas do governo federal quase 30 mil serão apenas para graduação e só 20% do total de beneficiados irá para os EUA, tb a parte q cabe à iniciativa privada creio não ficou bem ainda clara até agora como funcionará!

O essencial, penso eu, é que brasileiros não sejam atirados de qualquer maneira ao mundo acadêmico no exterior, para simples preenchimentos de programas desse ou daquele governo, com fins precipuamente estatísticos e/ de adestramento intelectual, divorciado da prévia e necessária noção da riqueza do contexto que se poderá vivenciar, tanto no conteúdo acadêmico quanto do aprendizado sobre a cultura com a qual deverá tomar contato. Portanto, o melhor dessa iniciativa toda, precisa ser, esse cuidado no preparo de cada viagem. Além do mais, o programa deveria priorizar o aperfeiçoamento de cientistas com teses voltadas para a melhora da educação básica do Brasil.. Esse sim, seria um bom , aliás, um ótimo começo de conversa!

Concordo plenamente com Joao de Freitas, o Brasil precisa olhar profundo para a Educaçao Básica. Se nao, teremos uma das melhores universidades do mundo (USP) e também ao mesmo tempo uma das piores escolas públicas do ensino fundamental do mundo, como revela os informes PISA de Educaçao Básica. Ou seja, continua o circulo vicioso da desigualdade....

Resumo: houve um tempo, em que boa parte da esquerda brasileira olhava com desconfiança quem estudasse no exterior. Agora temos a Luiza que estuda no Canadá.

Prezado Clóvis Rossi. Acompanho há tempos seus comentários que são muito bons. No presente caso, acho que a presidente está pensando bem. Enquanto brasileiros repudiavam os americanos, os chineses,coreanos,indianos,etc., estudavam nos Estados Unidos e são oque são hoje. Entretanto, acho que o programa deveria contemplar três vertentes: 1)-Mandar estudantes eprofessores de ensino superior, para o exterior, para pós-graduação; 2)-Trazer cientistas e professores para o Brasil;3)-Investir pesados e madar, também, professores do ensino fundamental, que é onde está nosso calcanhar de Aquiles na educação. Abs.

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Sobre el autor

Clovis Rossi. 48 años de periodismo, columnista del diario "Folha de S. Paulo" y del portal Folha.com, ya ejerció todas las funciones posibles en el periodismo, de reportero a editor-jefe, ganador de los premios Maria Moors Cabot, de la Universidad Columbia (NY) y de la Fundación Nuevo Periodismo Iberoamericano, dirigida por Gabriel García Márquez, los dos por el conjunto de la obra.

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