Clovis Rossi

Quando a mão certa é a contramão

Por: | 05 de abril de 2012



O ministro Guido Mantega, o presidente da Câmara Marco Maia e Dilma. A presidente Dilma Rousseff anunciou na terça-feira um conjunto de medidas para estimular a economia. Houve muitas críticas, algumas delas até eventualmente corretas do ponto de vista técnico. Mas a única acusação que seria injusta é a da falta de coerência.Explico: a presidente tem sistematicamente lamentado o tratamento que a Europa está dando à crise, adotando apenas medidas de ajuste, sem se preocupar com o essencial que é o crescimento econômico. Logo, para ser coerente, Dilma não poderia ficar de braços cruzados, assistindo passivamente a desaceleração da economia brasileira.É óbvio que o problema no Brasil não tem um décimo da gravidade alcançada na Europa ou mesmo nos Estados Unido. Os países europeus ou estão estagnados ou em recessão, ao passo que o Brasil continua crescendo, embora menos do que no luminoso ano de 2010, em que o crescimento superou os 7% - e, diga-se, foi um dos fatores que ajudou a eleger Dilma naquele ano.Além disso, enquanto o desemprego aumenta ou se mantém muito elevado na Europa, no Brasil há quase, quase, o pleno emprego.

Mesmo assim, a presidente está fazendo uma aposta no aumento do investimento, tanto público como privado, única maneira de assegurar um crescimento sustentável no futuro próximo.A intenção do governo é levar a taxa de investimento dos atuais 19% do PIB para algo próximo de 25%, se possível em seu período de governo, que vai até 2014.Como o PIB brasileiro é de cerca de US$ 2,5 trilhões, o programa anunciado significará um esforço para investir algo em torno de US$ 150 bilhões, em prazo que a presidente não especificou.É um número significativo para uma economia ainda emergente.Outra intenção da presidente coincide com a grande queixa do empresariado e dos mortais comuns: reformar o sistema tributário, uma enorme confusão, além de representar uma carga considerada excessiva.Do meu ponto de vista, não é que a carga seja de fato excessiva. O problema é que os serviços públicos entregues como contrapartida dos tributos é que são ruins ou ausentes."Tenho plena consciência de que o Brasil precisa reduzir sua carga tributária", disse a presidente, em uma entrevista na Índia, na qual antecipou partes do programa anunciado na terça-feira.Mas a reforma tributária será lenta e pontual porque, segundo ela, só no futuro, “talvez seja possível encaminhar uma reforma global”, em vista “dos vários interesses envolvidos na questão”. Citou como o principal deles a distribuição da arrecadação entre União, Estados e municípios". Por isso, Dilma defende uma discussão “calma, tranquila e realista”, enquanto toma “medidas pontuais que, no conjunto, permitem que se crie uma desoneração maior, o que é fundamental para o país crescer”.Outro aspecto em que a presidente trafega na contramão do rigor fiscal europeu é na sua análise dos gastos do governo, duramente decepados na Europa.No Brasil, diz Dilma, gastos de consumo do governo, que obviamente não são investimento, terão que aumentar em alguns setores, “principalmente quando se trata da saúde e da educação”.Para Dilma, é preciso, por exemplo, ampliar o número de médicos, porque o Brasil tem uma das menores taxas de médicos por habitante (1,8 para cada mil brasileiros).A presidente diz que “a população reclama de duas coisas, falta de médicos e, portanto, de falta de atendimento. Não é investimento, mas vamos ter que gastar e ao mesmo tempo aumentar a taxa de investimento”.Imagino que esse bom senso, pelo menos do meu ponto de vista, esteja por trás da popularidade de Dilma: a mais recente pesquisa lhe dá 77% de aprovação, quatro pontos acima do nível atingido no mesmo período de 2011. É um resultado igual ao melhor momento de Luiz Inácio Lula da Silva, supostamente campeão de popularidade de todos os tempos.O problema é que o governo Dilma tem aprovação bem menor (56%) do que a da pessoa Dilma.Dá para traduzir assim: o que a presidente pretende e/ou diz merece mais aplausos do que o seu governo é efetivamente capaz de realizar.

Hay 5 Comentarios

Isso é verdade!

Acho que a iniciativa de Dilma no esta mal, mais ela tem tomar muito cuidado porque grandes investimentos trazen grandes prejuizos.

Parabéns pelo blog!

Me alegra que haya un blog escrito en portugués que podamos leer con toda naturalidad, pero por favor, no abuse de las negritas, porque si resalta tantas cosas, no ayudará al lector a determinar el sentido del texto y la información verdaderamente importante.

Parece ser que, pelo seu passado, tem medo de ser mais impositiva, na medida do que necessitamos. Pode ser que a chamada Democracia näo agüentaria, eufemismo para interesses escusos de que somos vítimas há mais tempo do que podemos lembrar, como bem diz agora falando dos "vários interesses envolvidos", outro eufemismo para a ganância pantagruélica de seus sócios de Governo.
O País continua esperando um líder que saiba colocar-se ao lado do povo e confiar no seu apoio, fazendo valer o que diz a Constituiçäo, quando se refere à origem do Poder e em nome de quem é exercido.
Esperemos, pois.

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Sobre el autor

Clovis Rossi. 48 años de periodismo, columnista del diario "Folha de S. Paulo" y del portal Folha.com, ya ejerció todas las funciones posibles en el periodismo, de reportero a editor-jefe, ganador de los premios Maria Moors Cabot, de la Universidad Columbia (NY) y de la Fundación Nuevo Periodismo Iberoamericano, dirigida por Gabriel García Márquez, los dos por el conjunto de la obra.

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